Transfugação

Mal sinto o cheiro da musa
Que – obtusa – não me ama,
Mas tiro as blusas das outras,
Que abusam de mim na cama.

ESQUINA

Na esquina, quando o CD caiu, os arquivos escorregaram e se espalharam pelo chão. Nem percebi. Peguei o CD vazio, enfiei na pasta e continuei andando, rápido.

MOTO-CONTÍNUO

Hoje olhei pra lagoa. Fazia frio, senti frio. Foi a primeira coisa que senti o dia todo.

CAIXA DE MEMÓRIAS – O BALÃO

No dia em que completei oito anos, meu pai me surpreendeu com um presente inesquecível: um balão enorme, nas cores amarela e preta, onde estava escrito o meu nome e a data 29.06.1960.

A SUBMISSA

Laura desejava poucas coisas na vida.

Um quase inverno

o outono só esquenta as vísceras enquanto dorme
só avia pecados em segredo e silêncio
enquanto ora, dissimulado, às folhas secas em escalpo de rosa
pelo espinho que murcha, mas ainda fere

caminhar deserto

teu olhar
esse doido
amotinado
rebentou vidraças
estilhaçou anteparos

Suco de Mexerica

A mexerica é uma fruta democrática, divide-se entre tantos palatos e oferece seu suco a várias sedes. Gomos de mexericos democráticos espalhando-se nas bocas de todos, espalhando acidez e cítricos dentre os democráticos mexeriqueiros.

Garrafas, cigarros e estradas

minha cabeça explode, amada. será o excesso de cafeína ou seria a abstenção de sexo? o que sei é que a maresia é um ótimo refresco para o olfato. e assim como em dias de ressaca, não suportaria o cheiro de algo mais forte. e o vizinho do lado não larga o cigarro por nada.

Olhos de simular poesia

Eu só queria um par de olhos que simulassem poesia
Que transformasse o texto morto de um jornal em um poema de amor
Que magicamente fizesse das letras das revistas de fofocas um poema crítico…
Que fizesse da letra pobre
Um verso rico
Que transformasse meu andar torto num voo divino de um colibri…

O Centauro de Saramago

Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora fazer um corte a máquina e a gerente, uma felliniana de quase 100 quilos, a convocou para executar o serviço. Sentado na cadeira, observando-a através do espelho, Ignácio sentiu o célebre desconforto machista em ser atendido por um travesti. Suas mãos eram pesadas, mãos de homem, a despeito da tentativa de figura feminina que Nélida se esforçava em representar. Não fosse o leve azular da barba…
[…]

Teorema

em torno
dos fios
cabelos em
nós e
os pelos
a sós

enraizando

ouço pássaros noturnos
colorindo o que anda escuro
dentro da minha cabeça

(sem título)

a extensão das finas coisas toca-me profundo, como se de tudo dependesse esse gerúndio, só é inacabado.

Churrasco

Maio, cheiro da graxa desmanchando ao braseiro imiscuía flor de eucalipto. Fora apeando o baio que já avistaria o russo, lenço maragato e bombachas, botas cano-alto, pretas e lustro.

Fruto podre

Oh, patife mordaz de olhos bovinos!
Não tens em teus secretos mensageiros
Da discórdia, alguns biltres assassinos
Que queiram lutar co’os de pés ligeiros?

O Circo

O circo fechou
Palhaço não tem mais
Pra nos fazer rir
Não tem mais trapezista
Não tem mais bailarina

Usura

Se é uma costela que devo,
Aqui a tens. É tua.
Dou por liquidada a fatura.
Não basta a costela?
Não será o suficiente?

Heroísmo

Armadura de liga leve
Resistente à quebra,
ao ar e ao tempo.

(sem título)

por pura
falta de lábia…

Seja um bom condutor, não respeite a sinalização!

No caminho não há perigo!
confie em mim
que fui em frente
Quem te disse isso
ficou refém de sua covardia
feito namoradeira na janela

Nosso Primeiro Ménage

Olá, leitores da Revista Swing & Ménage Sex Total. Para narrar minha história, por razões óbvias, usarei nomes fictícios de pessoas e lugares.

CHUVA

costurados ao
céu…

Mergulho

O corpo pouco equilibrado já mergulhado
lembra o salto de gigante
era a vida a fechar-se duas vezes
um quarto de olhar à superfície
e um aviso para não resistir do outro lado
que afinal talvez existam
as hierarquias dos anjos

Instante de fotografia

um risco fugindo da tela
um brejo uma casa a colina
um trinca-ferro no galho
um velho tecendo armadilhas

Peractorum

Dá-me um gole do teu vinho mais seleto
E o morango, o chantilly, pra acompanhar.
Fica junto, não te afastes, sê discreto,
Mas me manda um sopro leve… Dá-me ar.

Asfixia

Tenho-me por tua nestes instantes
de hora marcada
que disciplinado me ofertas,
embora o tempo encoberto
de outras primaveras.

POEMA

Faísca

Uma lasca desprendeu-se da aurora boreal.
Verde-azulou mansinho
E foi-se embora. Sentia frio à deriva, tocada
Por ventos solares atmosfera afora,
Sem meta ou destino,
Sem nada.
Um fragmento dos fogos de artifício
De deuses primitivos
Quis, pra encurtar a história,
Abrigo num país tropical.
[…]