RAINHA DE IJEXÁ

Hoje eu vim cá na cachoeira, ô mãe
Vim beber do teu amor
O teu canto sereno me chamou
Eu vim

Gás

Talvez um poema lhe saia do peito,
Talvez venha a nós, outrossim, do intestino.
Pra mim, o poema biscoito mais fino
É o tal que se faz, não aquele que é feito.

LOUCURA A DOIS

Pareciam felizes no retrato que decorava o criado-mudo. Talvez tenham sido por algum tempo…

Ápode – Da teoria da imparcialidade

Não faço perguntas ao léu
Por medo dos ditos que ouvi.
Qual sombras sinistras no céu,
Silêncios respondem por si.

O elefante, o balão e eu…

Aquele elefante fumando cigarro
Cheio de desculpas
Amassando os carros
Com os pés – resolveu partir
Com ele, parte de mim

À Espera de Uma Chamada

Então reparei na forma com que segurava o celular. A mão arqueada, que o suspendia com absoluta precisão das extremidades, permitindo que apenas um dos cantos tocasse o mármore…

Meu universo numa nódoa de café

Enxuguei a mancha de café que deixei cair na agenda de anotações de minhas ideias para futuras historietas, não tanto para preservar a agenda em si, que era uma dessas cadernetas de anotações de espiral, pequena, de custo não ultrapassante os três reais, mas para salvaguardar os pensamentos, ideias e trechos de cotidianidade que eu colecionava na minha passagem pelos hojes da vida.

Alérgico, Ma Non Troppo

Dia desses experienciei aquilo que talvez seja o que experiencia as pessoas que morrem de morte morrida.
Cumpria meu plantão semanal de quarenta e oito horas na Delegacia de Polícia de Vassouras, quando tive uma ideia genial …

Apontando

Há muito tempo construí uma ponte que ligaria meu coração ao teu, para juntos bombear as esperanças de um para o outro, e de outro para um.
Ponte estaiada, mas que nos liga de uma forma pouco convencional mas muito sincera. O oceano de dúvidas, medos e inseguranças que nos sustenta está turvo hoje. Misturado com a borra de café, é possível adivinhar o futuro.

Espelho

Tu não amas nem a ti nem ao mundo
Nem a deus, nem a teu pai, ou a teu filho.
Nem a beleza que é a beleza que cria todas as belezas que dizes perseguir;

jabuticaba

sonhei-te hoje
num susto acordei
saltei para o escuro

doloso

sei dessa angústia
tardia que habita
meus espelhos
matinais

Transfugação

Mal sinto o cheiro da musa
Que – obtusa – não me ama,
Mas tiro as blusas das outras,
Que abusam de mim na cama.

ESQUINA

Na esquina, quando o CD caiu, os arquivos escorregaram e se espalharam pelo chão. Nem percebi. Peguei o CD vazio, enfiei na pasta e continuei andando, rápido.

MOTO-CONTÍNUO

Hoje olhei pra lagoa. Fazia frio, senti frio. Foi a primeira coisa que senti o dia todo.

CAIXA DE MEMÓRIAS – O BALÃO

No dia em que completei oito anos, meu pai me surpreendeu com um presente inesquecível: um balão enorme, nas cores amarela e preta, onde estava escrito o meu nome e a data 29.06.1960.

Um quase inverno

o outono só esquenta as vísceras enquanto dorme
só avia pecados em segredo e silêncio
enquanto ora, dissimulado, às folhas secas em escalpo de rosa
pelo espinho que murcha, mas ainda fere

Garrafas, cigarros e estradas

minha cabeça explode, amada. será o excesso de cafeína ou seria a abstenção de sexo? o que sei é que a maresia é um ótimo refresco para o olfato. e assim como em dias de ressaca, não suportaria o cheiro de algo mais forte. e o vizinho do lado não larga o cigarro por nada.

O Centauro de Saramago

Conheceu a Nélida no salão de cabeleireiro. Fora fazer um corte a máquina e a gerente, uma felliniana de quase 100 quilos, a convocou para executar o serviço. Sentado na cadeira, observando-a através do espelho, Ignácio sentiu o célebre desconforto machista em ser atendido por um travesti. Suas mãos eram pesadas, mãos de homem, a despeito da tentativa de figura feminina que Nélida se esforçava em representar. Não fosse o leve azular da barba…
[…]

Teorema

em torno
dos fios
cabelos em
nós e
os pelos
a sós

enraizando

ouço pássaros noturnos
colorindo o que anda escuro
dentro da minha cabeça

Fruto podre

Oh, patife mordaz de olhos bovinos!
Não tens em teus secretos mensageiros
Da discórdia, alguns biltres assassinos
Que queiram lutar co’os de pés ligeiros?

O Circo

O circo fechou
Palhaço não tem mais
Pra nos fazer rir
Não tem mais trapezista
Não tem mais bailarina

Heroísmo

Armadura de liga leve
Resistente à quebra,
ao ar e ao tempo.

(sem título)

por pura
falta de lábia…

Seja um bom condutor, não respeite a sinalização!

No caminho não há perigo!
confie em mim
que fui em frente
Quem te disse isso
ficou refém de sua covardia
feito namoradeira na janela

Mergulho

O corpo pouco equilibrado já mergulhado
lembra o salto de gigante
era a vida a fechar-se duas vezes
um quarto de olhar à superfície
e um aviso para não resistir do outro lado
que afinal talvez existam
as hierarquias dos anjos

Instante de fotografia

um risco fugindo da tela
um brejo uma casa a colina
um trinca-ferro no galho
um velho tecendo armadilhas

Asfixia

Tenho-me por tua nestes instantes
de hora marcada
que disciplinado me ofertas,
embora o tempo encoberto
de outras primaveras.

CRÔNICA

Caro Amigo Fred

Caro Amigo Fred

Antes de tudo, queira desculpar-me por escrever-lhe esta carta tanto tempo após o acontecido, mas você há de convir que fui pego de surpresa pelo desenrolar dos fatos e só agora me sinto em condições de relembrar todos os momentos que juntos passamos. Nada como o tempo para cicatrizar tristezas e fazer germinar alegrias.
[…]