Degredo

Sigo a ermo, abstraído,
Desenxavido em notar,
Que o Paraíba é meu rio,
Mas eu, feito peixe esguio,
Já não sei paraibar.

Dez Meses de Solidão

Então, o caminhão partiu. E tudo o que eu era, ou pudera ser, estava contido numa carroceria. Percebi, desta forma, que há algo de poetizável na miserabilidade.

O precioso indivíduo

Bato a porta do meu coração e me fecho às opiniões alheias, resguardo meu individualismo a todo custo, preciso como uma joia, e conciso como uma oração. Meu indivíduo é como Narciso, e espelha suas projeções defeituosas nas personas que me cercam virtual e realmente.

R.I.P.

Meados da década de 1960. Domingo à tarde. Circo mambembe instalado no campinho de futebol da meninada. Dois palhaços sobre pernas de pau tentam chamar a atenção dos moradores do bairro pobre e operário.

A NOITE DA VERDADE

Ele mentia. Ela mentia. Eles seguiam. Numa noite como outra qualquer, ele ousou dizer a verdade.

em devaneio esgarça

em devaneio esgarça
engasga o verso afoito
do meu beijo
ao coito
da língua
ao ventre

microclima

previsão de chuva
no céu da boca
a umidade no jardim
de suas coxas

Intento

Essa palavra incompreendida, altiva
Morando entre as minhas vísceras
É uma faísca alucinante, acesa
Minha desventura presa
à garganta

A Sinapse

é no silêncio que ocorre a palavra
fecunda-se o poema
cresce a substância primária da língua
a condição incorruptível do talvez
e a geometria do vazio se arremete
ante a luz

(sem título)

A mulher, o homem
um cajado, a flor
O menino e um ninho.

POEMA DE NATAL

A Revista Itinerário Imprevisto deseja a todos os seus leitores e colaboradores um muito Feliz Natal!

Cotidiano em três cenas

Finalmente meu lar. Véspera de Natal o shopping fica lotado. Todos os olhares nas vitrines e nós sendo vitrines de todos os olhares. Os pensamentos alheios nos fitando, filtrando nosso caráter, nosso potencial de consumo: “Deve ser rico!”, ou então, “Ih! Pé rapado! Vai comprar seis meias, não dá nem para a comissão do vendedor…”.

Aquela

Sou aquela que arde
na mácula escura
nesse buraco permanente
em não poder ter dito
tudo
ter vestido

Pequeno

eu posso saber de tudo
ser essência da vida
posso ser algum anjo
luz das almas perdidas
posso ser boa nova
das saudades infindas

A Salvação da Lavoura

Uma danação lhe consumia desde que soubera do tal satélite. A coisa que os homens tinham botado lá no céu ia despencar, ouvira no rádio da bodega do Simão no sábado em que aproveitara pra tomar uma carraspana e esquecer a maldita vida que levava.

PELE

acho que devo vestir algo
cobrir o corpo em que passeias
tatuagens que a saliva deixa
me travestir de santa
adotar uns mantos azuis
usar armas e capa vermelha?

Tristeza antiga

Esta tristeza ancorada em meus olhos tange o rio de águas doces que corre nos sertões do meu espirito. Perdi o rito da vida, o ritmo das coisas comuns.

Faíscas nos olhos

Teorizo a matéria em vazios,
Espalhando migalhas na mesa.
Tenho n’alma um terreno baldio
E sou cúmplice, invento a surpresa.

RAINHA DE IJEXÁ

Hoje eu vim cá na cachoeira, ô mãe
Vim beber do teu amor
O teu canto sereno me chamou
Eu vim

Gás

Talvez um poema lhe saia do peito,
Talvez venha a nós, outrossim, do intestino.
Pra mim, o poema biscoito mais fino
É o tal que se faz, não aquele que é feito.

Alérgico, Ma Non Troppo

Dia desses experienciei aquilo que talvez seja o que experiencia as pessoas que morrem de morte morrida.
Cumpria meu plantão semanal de quarenta e oito horas na Delegacia de Polícia de Vassouras, quando tive uma ideia genial …

MOTO-CONTÍNUO

Hoje olhei pra lagoa. Fazia frio, senti frio. Foi a primeira coisa que senti o dia todo.

Garrafas, cigarros e estradas

minha cabeça explode, amada. será o excesso de cafeína ou seria a abstenção de sexo? o que sei é que a maresia é um ótimo refresco para o olfato. e assim como em dias de ressaca, não suportaria o cheiro de algo mais forte. e o vizinho do lado não larga o cigarro por nada.

O Circo

O circo fechou
Palhaço não tem mais
Pra nos fazer rir
Não tem mais trapezista
Não tem mais bailarina

Heroísmo

Armadura de liga leve
Resistente à quebra,
ao ar e ao tempo.

(sem título)

por pura
falta de lábia…

Seja um bom condutor, não respeite a sinalização!

No caminho não há perigo!
confie em mim
que fui em frente
Quem te disse isso
ficou refém de sua covardia
feito namoradeira na janela

Mergulho

O corpo pouco equilibrado já mergulhado
lembra o salto de gigante
era a vida a fechar-se duas vezes
um quarto de olhar à superfície
e um aviso para não resistir do outro lado
que afinal talvez existam
as hierarquias dos anjos

Instante de fotografia

um risco fugindo da tela
um brejo uma casa a colina
um trinca-ferro no galho
um velho tecendo armadilhas

CRÔNICA

Meu universo numa nódoa de café

Meu universo numa nódoa de café

Enxuguei a mancha de café que deixei cair na agenda de anotações de minhas ideias para futuras historietas, não tanto para preservar a agenda em si, que era uma dessas cadernetas de anotações de espiral, pequena, de custo não ultrapassante os três reais, mas para salvaguardar os pensamentos, ideias e trechos de cotidianidade que eu colecionava na minha passagem pelos hojes da vida.
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