Allan Vidigal

Faísca

Uma lasca desprendeu-se da aurora boreal.
Verde-azulou mansinho
E foi-se embora. Sentia frio à deriva, tocada
Por ventos solares atmosfera afora,
Sem meta ou destino,
Sem nada.
Um fragmento dos fogos de artifício
De deuses primitivos
Quis, pra encurtar a história,
Abrigo num país tropical.
[…]

Usura

Usura

Se é uma costela que devo,
Aqui a tens. É tua.
Dou por liquidada a fatura.
Não basta a costela?
Não será o suficiente?

CONFISSÃO

Eis um segredo:
Por mais que eu te diga
“maldita, maldita, maldita”,
É mentira.
[…]

Tempo

Tempo

Eterna dança de roda,
um baile estático e mudo,
uma ciranda de rocha.
As pedras dançam sem pressa
e giram junto com o mundo
(seu tempo se conta em eras).
[…]

LAMENTO DE UM FOODIE FODIDO

I

Ah, quem dera estar em terras de França e, num porão qualquer de Isigny-sur-Mer, abrir um verdadeiro camembert, em vez dessa porcaria pasteurizada a que a vigilância sanitária nos obriga. E que se danem as lombrigas.

II

Caviar, quem sabe. Sevruga com blinis. Ou, já que estamos no plano da imaginação, um beluga, até? Mas não o de Taubaté. Esse não.
[…]

Três Poemas

a soma dos quadrados dos catetos
é igual a um arremedo de musa.
antipoesia matemática,
geométrica,
da musa geneticamente arquitetada
[…]