Celso Mendes

Um quase inverno

Um quase inverno

o outono só esquenta as vísceras enquanto dorme
só avia pecados em segredo e silêncio
enquanto ora, dissimulado, às folhas secas em escalpo de rosa
pelo espinho que murcha, mas ainda fere

Acalanto para abstinências e vazios

Acalanto para abstinências e vazios

é para agasalhar ausências que teço este poema
fantasmas não dormem
anseios me esperam
[…]

Cantiga de poucos verbos para tanto amanhã

Cantiga de poucos verbos para tanto amanhã

hoje só parto,
amanhã não sei

e se amanhã houver,
lembra-te de alguma palavra minha
[…]

Cicatrização

Cicatrização

o destino é agora. porque é sempre agora que chega a partida.

Cicatrizes

Cicatrizes

ele tinha marcas de chumbo em olhos nus de silêncio. pairava seu torpor em nuvens sulfurosas de lembranças a lhe dissecar a mente. pedia alívio em colchetes e parênteses de papoula e beladona.
[…]

Evisceração

Evisceração

espere pela volta das borboletas na poeira do tempo
espere por aquele olhar a se projetar entre estilhaços de angústia
espere pela nuvem de gafanhotos-devoradores-de-horizonte
mas não vá, fique um pouco mais, ainda há muito o que esperar
e não me deixe plantado neste inferno cor-de-rosa sem um porquê
[…]

Ruídos de um silêncio sobre luzes imaginárias

Ruídos de um silêncio sobre luzes imaginárias

de repente a visão, mas não há imagem
e o que eu supunha indelével
eram apenas pegadas em tempestade de areia
apenas o início do precipício
um lapso negro
no dia mais brilhante
do que eu previra primavera
[…]