1 comentário

R.I.P.

Meados da década de 1960. Domingo à tarde. Circo mambembe instalado no campinho de futebol da meninada. Dois palhaços sobre pernas de pau tentam chamar a atenção dos moradores do bairro pobre e operário.

Oferecem descontos ou trocam ingressos por um bom prato de macarronada com frango, degustados vorazmente ali mesmo no degrau da porta de entrada da melhor casa do bairro, enquanto as ripas que sustentavam os homens vários palmos acima do chão descansam encostadas na parede.

A fome era tanta que nem se deram ao trabalho de tirar a maquiagem, assim o molho do macarrão respingava sobre o enorme contorno da boca pintado de branco.

O alto-falante do circo roda sem parar a mesma canção: Credi a me, ripenserai, alle cose che io dato a te… anunciando a presença do jovem cantor italianíssimo para logo mais.

Nos intervalos da música, um locutor anuncia o horário das sessões e o grande concurso de “A boneca mais bonita da cidade”, cujo prêmio seria uma caixa com guloseimas acompanhado por uma garrafa de guaraná caçulinha.

Corri para casa e fui atrás de minha Gracy, a boneca nova que Papai Noel me trouxera no último Natal e tristemente constatei que o vestido dela estava sujo, os cabelos de lã embaraçados, com a fita que os prendia também amarfanhada.

Entristecida, contei para minha tia Sila sobre o concurso e lamentei pela Gracy que, presumi, apesar de linda, não teria qualquer chance.

Foi então que um mundo de esperanças se abriu: minha tia retirou do baú de retalhos um lindo tecido de laise azul para combinar direitinho com os olhos da minha boneca, e, ao mesmo tempo em que me orientava como limpar o rostinho e as perninhas da Gracy com um chumaço de algodão embebido em álcool, magicamente foi transformando aquele retalho em um lindo vestido longo que fez da boneca uma princesa. Completou com um belo laçarote de fita, ornando os cabelos de lã e ainda encobrindo uma pequena falha capilar, fruto de minhas desastradas tentativas de desembaraçá-los.

Uma fila de crianças quase dobrava o quarteirão quando cheguei perto do circo. Entre elas, as menos pobres já ostentavam o ingresso nas mãos. A maioria, porém, estava por ali tentando entrar ao primeiro descuido do porteiro ou procurando uma brecha entre a lona e a arquibancada.

Eu estava entre as felizardas. Segurava firme o ingresso com uma das mãos e no outro braço ostentava a boneca radiante no vestido azul rendado. Outras meninas também seguravam suas bonecas: bebês de polietileno, alguns de pano ou de papelão. Havia bonecas que se pareciam com a Emília, do Sitio do Pica-Pau Amarelo, mal acabadas, feitas por mão desajeitadas e recheadas de capim seco.

Pensei: – aquelas bonecas não seriam páreo para minha Gracy, praticamente a única boneca de borracha, com olhos que abriam e fechavam, e agora com aquele vestido lindo de laise e renda azuis.

Eu me senti ainda mais confiante: já me via abrindo o saquinho de guloseimas oferecido, onde certamente haveria dadinhos de amendoim, marias-moles, cocadas e queijadinhas, além de balas, é claro! Também imaginei meu avô furando com um prego a tampinha da garrafa de guaraná para que eu tomasse o refrigerante pelo buraquinho.

Finalmente, às três em ponto, começou a sessão. A bandinha entrou no picadeiro acompanhada dos palhaços em pernas de pau, dos malabaristas que jogavam para o ar as bolinhas de tênis encardidas, da adestradora com dois poodles ostentando chapeuzinhos vermelhos… Até que, com a voz empostada, o apresentador gritou:

– Respeitável Público – Boa Tarde!

E a meninada respondeu: – Boa Tarde!!! – gritando mais alto ainda.

Após a apresentação dos números circenses, antes do cantor que era a grande atração da tarde, as meninas com suas bonecas foram chamadas para o concurso.

Desci orgulhosa a arquibancada de tábuas soltas que rangiam e quase despencavam ao se pisar nelas e me juntei às outras meninas no centro do picadeiro. A comissão julgadora seria a própria plateia, que escolheria por aplausos a boneca mais bonita.

Éramos poucas, umas sete ou oito, talvez dez. Olhei para o lado e quase não acreditei no que vi: uma menina desconhecida no bairro também estava competindo. E segurava pelas mãos uma boneca Amiguinha, que em pé, tinha quase o mesmo tamanho de sua dona.

Na salva de palmas, minha Gracy com seu vestido de laise e renda ficou em segundo lugar. A boneca Amiguinha, dentro de uma roupinha cor-de-rosa desbotada, daquela menina que ninguém sabia quem era, ganhou disparado!

Logo em seguida o cantor que não aparentava ter mais de quinze anos entrou no picadeiro e com sua voz potente entoou: Credi a me, ripenserai / alle cose che io ho dato a te, / la fiducia che ormai / ho perduto assieme a te. / Credi a me, ricorderai, / e nei sogni che farai / forse mi ritroverai / come allora accanto a te. / Credi a me, ripenserai / alle cose che io ho dato a te, / la fiducia che ormai / (ho perduto) assiem e a te. / Credi a me, ricorderai, / e nei sogni che farai / forse mi ritroverai / come allora accanto a te.

No dia seguinte, como se estivesse zombando de mim, vi dentro da perua Rural Willys a mesma boneca Amiguinha de vestido desbotado cor-de-rosa sentada sobre as tralhas do circo que se preparava para deixar a cidade.

Passaram-se décadas e com a morte do cantor italianíssimo me vem à memória o que talvez tenha sido a primeira das inúmeras vezes em que me percebi ludibriada. E essa lembrança ainda dói, muito mais até do que a morte do cantor.

R.I.P., Jerry Adriani…

Apoie este projeto!

Crowdfunding

Tá na hora de imprimir!

Faça uma doação!

Ganhe recompensas!

Campanha “Caminhos que se abrem

A revista digital superou as nossas expectativas. Então resolvemos assumir um compromisso bem mais sério com os nossos leitores: um sítio com domínio próprio, com design competente e responsivo E… a edição impressa!

Saiba mais aqui.

Anúncios

Sobre Henriette Effenberger

Brasileira, escritora, residente em Bragança Paulista-SP

Um comentário em “R.I.P.

  1. Querida li com a maior atenção e saudade o texto belíssimo que vc publicou sôbre os detalhes de infãncia, passando pela macarronada com frango, prato obrigatório. Dos Domingos no nosso bairro , depois a sua boneca em estado de penúria e a sua vontade de participar daquele concurso que , vencendo, seria a glória de uma menina sonhadora ……em seguida vc disse que apelou pra tia ” Sila”” e ela , como era de se esperar ,deixou tudo em ordem…….nesse momento que vc tocou no nome da Tia
    Sila , despertou em mim um sentimento tristeza e alegria , quando rodou como um filme em minha cabeça os momentos inesquecíveis que passei ao lado dos membros dessa família que me tratava como filho, pois quando nasci minha mãe não tinha leite então fui amamentado pela Esposa do sr Miguel Marcos Rodrigues, me tornando um membro daquele incrível família, Olympio, Sila,Joana ,a quem menino ainda fui visitár no Hospital, e sempre que escrevia perguntava por mim, Irene e Dr Flávio, que não era ainda Dr mas já merecia pela inteligência , talento , competência , caráter , honestidade, e que ao se aposentar deixou uma folha de serviços e direitos de colegas da ” ferrovia”, viúvas, aposentadas , pensionistas que nunca ficaram sabendo quem teria feito tantas modificações e tratando de direitos que nem sabiam que tinham …….tudo isso porque fazia de maneira anônima , como era seu jeito..enfim como meu irmão é único amigo verdadeiro que tive durante toda minha vida me obriga a ir de encontro a teoria da Ruy Barbosa, quando disse que ” os amigos, todos eles são, como aves de arribação, quando faz bom tempo eles vem quando faz mau tempo eles vão”. Pelo menos no meu caso foi um amigo querido , desde sempre.. Agradeço a vc ter me dado a oportunidade de falar alguma coisas dessas pessoas muito queridas e inesquecíveis que amei com muita intensidade…..

    Curtir

Seu comentário é bem-vindo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: