Deixe um comentário

Cotidiano em três cenas

Cena I

Finalmente meu lar. Véspera de Natal o shopping fica lotado. Todos os olhares nas vitrines e nós sendo vitrines de todos os olhares. Os pensamentos alheios nos fitando, filtrando nosso caráter, nosso potencial de consumo: “Deve ser rico!”, ou então, “Ih! Pé rapado! Vai comprar seis meias, não dá nem para a comissão do vendedor…”.

Sento-me na poltrona. Tiro os sapatos. Como me apertam os calos! Pés calejados, mãos calejadas, alma calejada. Calço meus chinelos para ver se conseguem dar algum conforto ao meu corpo. Pego o jornal. Abro-o aleatoriamente na parte literária. Arte. Foi-se o tempo em que arte era ars. Hoje a ideologia da estética não a vê mais assim. Hoje arte é preço, é lucro, é oportunismo que eleva a sombra da mediocridade às cadeiras imortais da academia. Fecho-o.

Vou à cozinha pegar um refrigerante. Pego-o. Abro-o. Encaro-o como se, assim, pudesse encarar todo o complexo sistema capitalista-explorador que aquela marca representa. Enervo-me. Imponho-lhe restrições e sanções. Encaro-o como para mostrar-lhe que temos força, que podemos mais, que, afinal de contas, somos o Povo. O adorado e glorioso Povo de Marx. Escarro nele. Depois de certo tempo, bebo-o, com escarro e tudo. Deixo empurrarem-me aquela gosma cáustica garganta abaixo. Como sempre o fizeram. Sem reclamar. E o pior de tudo é que ainda sinto prazer nisso. Não há mais o que fazer.

Volto para a sala. Passando pela bombonière na arca pego o último bombom. Abro-o. Aprecio-o. Uma caixa deles fora o último presente da última mulher que tive. Não sou bom em meus relacionamentos. Geralmente duram o período existencial de uma caixa de bombons. São sempre doces e passageiros. Mentalizo-a. Metaforo-a no bombom. Delicio-me devorando-a.

Procuro no bolso da calça meu isqueiro. Sempre demoro em achá-lo, quando não o perco. Por isso só compro os baratos. Se Prometeu soubesse que o fogo roubado do Olimpo teria essa finalidade no futuro, não teria cometido o crime. Os abutres não se alimentariam eternamente. Acendo meu cigarro. Prazer. Prazer mesmo deve ser parar de fumar. Já tentei. Fiquei, no máximo, cinco meses. O Homem é um bicho burro mesmo, sabe que essas merdas matam, mas não deixa de fumar, de beber, de cheirar, de injetar, de comungar e de casar… Ô raça!

Ligo a TV. Passa uma propaganda de supermercado. Lembro-me que estou sem gilete e sem palha de aço aqui em casa. Amanhã os comprarei.

Começou o programa. Aquele decano reality, pai de todos. Vou espioná-los enquanto eles monitoram minhas terminações nervosas, minhas ramificações e células cerebrais, enfim, domam-me e reestruturam meu bulbo e cerebelo. Minam-me. Põem-me arreios e montam-me. Xucro não mais. Manso e dócil como um cordeiro prestes a ser imolado ao falso ídolo. Adormeço.

Cena II

Ainda bem que cheguei a tempo. Já pensou se eu perco o meu programa favorito! Mas, graças a Deus, ainda há prazo. O dia lá no shopping custou a passar. Também pudera, né, véspera de Natal é sempre assim, lota! Aquilo lá mais parecia o trem da Central que eu tenho que pegar todo dia.

Meus pés tão me matando. Fiquei em pé o dia todo atendendo gente. E cada peça que me apareceu hoje, viu! Teve aquela bicha velha com rapazinho a tiracolo e tudo. O rapaz era muito bonitinho mesmo e ganhou quase um guarda-roupa inteiro de presente de Natal da “mona”. Pareciam até recém-casados. E a peruona toda emperiquitada que queria por que queria a saia da cor verde-limão-shocking! Eu a avisei que a saia só tinha nos tons azul e amarelo, mas a desinfeliz queria porque queria verde-limão-shocking. Não só me perturbou a paciência como foi reclamar com a gerente “que eu não estava sendo bastante atenciosa para com ela”. Ah! Vai te catar fedegosa! Vai procurar serviço! Ainda bem que a gerente presenciou tudo e ficou do meu lado. Defendeu-me. Fiquei superultra feliz. Nunca ninguém havia me defendido antes. Gostei. Mas continuo com dores nos pés. Cadê os chinelos? Onde coloquei? Ah! Tão aqui! Ahhhhh! Que bom tirar os sapatos.

Tenho que ligar para a Graça. Bem que o horóscopo do jornal disse que eu ia achar minha alma gêmea hoje. Tava lá, em capricórnio: “Hoje o dia é propício a relações duradouras e confiáveis. Agarre as oportunidades com unhas e dentes, pois nunca se sabe se elas retornarão outro dia.”, e não é que deu certo? O Valmir, segurança, me convidou para almoçar. Pagou tudo, a comida o refri. Me deu até um bombom de sobremesa. “Um perfeito gentleman” diria a minha mãe. Acho que tô apaixonada!

É, fia, tá ficando veia! Tu é do tempo em que ainda passava propaganda de cigarros na TV. Ainda bem que parei de fumar. Faz uns cinco anos. Nem isqueiro tenho mais. Para não dizer que não tenho, tenho um, bem velhinho, velhinho, que uso para acender o fogão. É mais econômico que comprar fósforos ou aquele aparelhinho de acender fogões que a gente compra de camelô, importado ou falsificado no Paraguai, e sempre arrebenta depois de três meses de uso.

Ih! A imagem da TV tá uma bosta! Deve ser a antena. Vou colocar palha de aço, peraí. Pronto. Tá joia! Nossa! Isso de palha de aço na antena é muito pobrinho! Lembra os tempos do grupo escolar, quando quem tinha apontador era apontado como grã-fino. O resto fazia a ponta do lápis era com gilete mesmo. Começou o programa. Ahh! Olha só o apresentador! Como é bonito esse homem gente! Tudo de bom! Ah! Moço bonito, eu queria que você me espionasse toda! Ahhhh!

Cena III

Odeio o Natal. A véspera é pior ainda. Você sabe que não tem para onde fugir, ele chegará, o Natal. Acendo um cigarro. Ando apressado. Parece que vai chover. Trago-o como quem come pela primeira vez em dias: ávido. Aperto o passo. Esse tênis é confortável, tem absorvedor de impacto, perfeito! Melhor do que o chinelo que ganhei de presente. Odeio chinelos, lembram-me do velho. Quero deletá-lo da memória, a minha.

Pego um ônibus. Ao meter a mão no bolso para tirar o dinheiro da passagem deixo cair o meu isqueiro que é, em seguida, recolhido e confiscado por um mulato mal-encarado. Eu o vejo ficar com ele e nada faço. “Não vale a pena brigar por isso!” Era o que o velho dizia. Velho idiota! Sento-me. A moça na minha frente folheia o jornal. Leio a manchete da página bem rápido, antes que ela mude de novo: “Crescem as expectativas de venda na época do Natal.”. Claro que crescem! Famílias inteiras se digladiando pelas melhores ofertas nas ruas e nos shoppings. Foi-se o sentido real do Natal. A família. A Sagrada Família. Este é o principal intuito de se comemorar o Natal. E não a porra das compras! A porra da ceia! A porra da árvore! Exalto-me. Principio a lacrimejar. Tento reassumir o controle. Há três anos que deixei de usar os ansiolíticos e é a primeira grande crise que enfrento livre. Livre de tudo. Livre de todos.

Olho pela janela. Vejo a cidade à noite e seus olhos luminosos me veem também. Ela me encara. Ela me conhece. Julga-me. Ela sabe quem sou. Vejo o luminoso daquela famosa marca de refrigerantes. Vermelho. Como eu sou por dentro. Vermelho. Como é o meu ódio. Vermelho. “Isso são horas de chegar em casa, vagabundo!”. Era o que ele diria. Velho estúpido.

Chego em casa no momento em que a chuva cai. Cai não, desaba. Chuva grossa, torrencial. Ligo a TV. Propaganda. Uma marca de bombom. Não sei por que esse tipo de doce lembra minha infância. A época que eu era ingênuo, inocente. Vai ver é uma associação de ideias e memórias, entre doce e infância. Vai saber. Pode ser. Lembro-me de minha mãe dando-me, sempre aos domingos, um bombom, depois da missa, quando saíamos da igreja e passávamos pelo cego que vendia doces. A Sagrada Família. “Não acostume mal esse moleque, Ana!” – era o que ele dizia. Velho imbecil.

A chuva está aumentando. Igual àquele dia. O dia em que morri. O dia em que ele morreu para mim. Sozinho em casa. Ele na sala de TV. Bêbado. O normal. Mamãe havia saído para fazer as últimas compras do Natal, as compras da véspera, com a chuva forte deve ter ficado presa no trânsito. Vai começar o reality show. Odeio este programa de merda! Muito torpe. Muito vil. Muito sujo. Ele… Eu estava no quarto. Estudando. Sempre fazia tudo para agradá-lo. Nunca o consegui. Tinha doze anos naquele tempo e já trabalhava só para não pedir mesada. Estudava muito. Jogava bola, nadava, contudo o porte físico ainda era mirrado. Ia à missa. Fui até escoteiro. Mas nada conseguia fazer com que eu o contentasse. Que ficasse feliz comigo. Ele chegou à porta do meu quarto. Trôpego. Alcoolizado. Entrou no quarto. Trancou a porta e desabotoando as calças me chamou para perto dele. Não obedeci e fui recuando até a janela para que eu pudesse pulá-la, já que morávamos em casa de um só pavimento. Ele então, num frenesi de guerreiro nórdico, deu um salto que mais parecia um bote de jiboia, surpreendeu-me com um soco, rendeu-me e… “Papai faz isso por que te ama muito.”. Foi o que ele disse. Velho filho da puta!

Começo a chorar. Descontrolo-me. Era véspera de Natal. E minha própria Sagrada Família havia me dilacerado. Crucificado-me. Hoje minha mãe não existe mais. Nem ele. Foram-se, mas não se foram. Sempre me lembro deles. Vou ao banheiro. Volto para a sala. A poltrona em frente à TV. Fito a TV. Encaro a gilete que trago nas mãos. A lâmina da verdade, a que expõe tudo. A que traz à tona toda a lama que há dentro de nós. Passo-a nos pulsos. Jorra sangue. Muito sangue. Esguicha sangue na tela da TV. Vermelho. Minha pressão cai abruptamente. Suo frio. Enjoo. Vomito todas as marcas que comi no chão da sala. Turva-me a vista. Embaça-me a visão. Vermelho. Já não ouço mais a TV. Já não ouço mais a chuva. Já não ouço mais meus pensamentos. Tenho, num relampejar de minha mente, uma memória. A última. Outra marca de minha inocência. Quando faltava luz em minha cidade, lembro-me de amarrar um barbante em palha de aço, acendendo-o e rodando por sobre minha cabeça, fazia milhões de estrelinhas. Vermelho… Eu era um farol… Vermelho… Um farol para o devir… Vermelho… Um farol para o futuro… Senderos

Apoie este projeto!

Crowdfunding

Tá na hora de imprimir!

Faça uma doação!

Ganhe recompensas!

Campanha “Caminhos que se abrem

A revista digital superou as nossas expectativas. Então resolvemos assumir um compromisso bem mais sério com os nossos leitores: um sítio com domínio próprio, com design competente e responsivo E… a edição impressa!

Saiba mais aqui.

 

Anúncios

Seu comentário é bem-vindo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: