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Meu universo numa nódoa de café

Enxuguei a mancha de café que deixei cair na agenda de anotações de minhas ideias para futuras historietas, não tanto para preservar a agenda em si, que era uma dessas cadernetas de anotações de espiral, pequena, de custo não ultrapassante os três reais, mas para salvaguardar os pensamentos, ideias e trechos de cotidianidade que eu colecionava na minha passagem pelos hojes da vida. Hábito adquirido por osmose de Maiakovski.

O dedo ainda sentia alguma ardência, provocada pela xícara quente. Não possuo destreza para xícaras, isso é um fato que já comprovei drasticamente em calças, sapatos e toalhas de linho alheias, sendo esta a causa mor de as evitar, preferindo os copinhos Nadir Figueiredo ou os de massa de tomate, requeijão e até os potes de azeitona. Foi a minha sensibilidade ao fogo que gerou todo esse épico acontecimento nesse microuniverso de uma mesa em um café no Shopping Vitória, onde estive por dois dias em fevereiro de um ano desses, ao tentar dar o primeiro gole. No segundo, derramei café na bermuda, “É hoje!”, pensei.

Enxuguei a mancha de café que deixei cair na minha agenda, e o engraçado é que o guardanapo de papel que usei para minimizar a ação destrutiva do princípio ativo desse meu caos particular, nesse meu pequeno universo, após sua utilização reparadora, ficou estigmatizado como um daqueles cartões de teste Rorschach, é, igualzinho mesmo, só que na variação monocromática café marrom-tabaco, em vez do preto.

Fitei aquele papelico, tentava desvendar quais formas poderiam me entregar como psicopata, facínora ou anticristo, dependendo de minha potencialidade. Vislumbrei uma das posições: parecia alguém com um capacete gigantesco montado em uma moto. Não gostei da imagem, até por que não piloto motos, na verdade, não dirijo carros nem caminhões, da bicicleta eu não sei o manuseio, muito menos qualquer meio locomotivo de tração animal. É… acho que não consigo conduzir nem mesmo esta minha vida calhambeque! Motivo pelo qual resolvi girar o guardanapo, e no sentido anti-horário, só para discordar de algo.

Agora, a imagem era a de um velho com a barba de Dom Pedro II no exílio. “Serei eu no futuro?”, evoquei, “Tão acabado assim? É isso mesmo? Será que a cafeomancia enxergaria isso em minha borra de café? Teria Machadão pensado numa leitura de futuro pela mancha de café em um guardanapo de papel, em vez de uma simples e reles cartomante?”. Bem, como não tenho o conhecimento próximo de ninguém com essas feições e, de vista, apenas tendo reconhecido uma leve semelhança com o Sivuca, como sósia desse borrão (mas acho que ele não vale), preferi dissipar essa nuvem indagativa e dar outra oportunidade ao acaso de se cirandear mais uma vez o lenço.

Na nova imagem, estarrecido, como um refém do The Walking Dead, minha psique enxergou uma caveira com um prego enorme encravado nela, de baixo para cima, “Ah! Agora sim! Esse é o bom e velho Rorschach que conheço!”, refleti. Contudo, como não sou necromante, nem ritualista de magia negra, virei para a última projeção imagética que me restava, o mais depressa que pude, para me desvencilhar daquele “acredite se quiser”.

Olhei a figura, não acreditando. Mais de cinco minutos contemplativos se passaram, enquanto eu inculcava alguma lógica para aquilo. Encarei a mancha e, admirado, aceitei-a como sendo a minha imagem psíquica ou a imagética de meu ser. Não podia crer no que via: uma lâmpada, dessas elétricas, emanando energia em ondas de vapor, numa clara demonstração de ideia elucidativa. Uma prova randomicamente pictórica da genialidade humana. Uma premonição que culminou nesta crônica, tendo por resultado um texto oriundo de um acaso aleatório principiado por um acontecimento desastroso de um café derramado em uma folha de papel.

Reflexivo, pensei “E por que não?”. Se a vida, em si mesma, é uma sequência de ações ao acaso, se ela mesma se inicia com o acaso de apenas um entre milhões ser o mais rápido para reivindicar uma identidade corpórea mais significativa. E tudo, todos os acontecimentos, mesmo que pensados, planejados e intencionados, dependem da variante indesejada do pode ser, mas quem sabe?

Aquela nódoa de café naquele pedaço insignificante de guardanapo me mostrou o poder de uma mente ao nos depararmos com uma mancha no branco papel de nossas vidas, valendo-se do momento para adquirir experiência, para aguçar a criatividade, para gerar ordem do caos.

Terminei minhas anotações e esta crônica aqui, paguei o café meio bebido (sim, pois a outra metade deixei toda espalhada naquela mesa!) e fui embora, satisfeito com o que havia coletado e anotado em minha agenda. Hoje, vez por outra, ainda abro a caderneta na página da mancha, só para ver se ela ainda está lá, se não se apagou. E quando a encaro e constato sua ainda existência, isso me dá uma felicidade danada, tal qual um bom café expresso.

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2 comentários em “Meu universo numa nódoa de café

  1. Um texto com grande profundidade… Amei!

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  2. Grande, Zé Ronaldo! A força da poesia dentro da prosa!!!!

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