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ESQUINA

CD

Na esquina, quando o CD caiu, os arquivos escorregaram e se espalharam pelo chão. Nem percebi. Peguei o CD vazio, enfiei na pasta e continuei andando, rápido.

Foi só no bar que notei um poema se aproximando, todo torto. Puxou-me a barra do jeans, queria que eu o pegasse no colo.
Depois vi a declaração de IR do ano passado, ali, à vista de todos, escancarada em uma cadeira, numa pose de mulher de vida fácil. Nela os algarismos misturados faziam com que eu declarasse uma fortuna inexistente. Só o imposto consumiria tudo que tenho. Uma dupla passou de moto. Reduziram a velocidade, olharam interessados para aquela devassa, fizeram meia volta. O garupa a puxou, examinou-a. Cutucou o piloto, mostrando um detalhe. Partiram acelerando, levando a minha declaração. Anotei a placa da moto. O que mais eu poderia ter feito?

Só então notei que as fotos na parede do bar eram as minhas. Como não percebi antes? Olha ali! Junto à porta do banheiro, um close do amor da minha vida. Nós dois, abraçados, sorrindo para sempre, noutros tempos.

Junto à chapa onde fritam linguiças, uma pose do nosso grupo, no churrasco na casa da Zelina, anos atrás. Amigos que nunca mais encontrei.

Um rapaz com um violão nas costas atravessou a rua. Quando chegou junto ao bar, estacou. Olhou em torno, desconfiado. Em seguida, seu rosto se iluminou, entrou no bar, sentou numa banqueta junto ao balcão. Depois de dedilhar um pouco, tentativamente, como quem procura a melodia, começou a cantar minha última composição, aquela que está quase pronta.
O gerente, no caixa, comentou:
– Que legal, Mário! Essa eu ainda não tinha ouvido.
– É nova. Acabei de compor, do nada!
– Do nada? –, perguntei, em tom levemente amargo.
– Às vezes acontece –, explicou o rapaz. – A música simplesmente baixou em mim.
– Fez um download, né? – insisti.
Ele riu.
– Foi mais ou menos isso… Baixou. Do nada.
E depois de um silêncio, repetiu, ainda pasmo:
– Do nada!
Tentei pelo menos salvar a letra, que ele alterara em alguns pontos, deixando-a meio sem sentido:
– Ali onde você cantou “do coração”, por que não substitui por “adoração”? Melhora muito.
– Boa ideia! Posso usar? Você não se importa?
– Não, cara. Vai em frente.

Saí do bar e vi alguns dos meus dados sendo atropelados por um ônibus. Ficaram no asfalto, esmagados, ainda se debatendo, meio ensanguentados, extensões tentando se organizar: .xls, .pdf, .doc, .pps, wmv, .dwg. As letras se misturavam, formando fantasmas de softwares improváveis.

Uma carta de amor, de despedida, balançava nas mãos de uma garota que chorava enquanto a lia em voz alta para os passantes. Alguns lhe jogavam moedas, condoídos. Outros se juntavam atrás dela, tentando ler sobre seus ombros.
– Tanta dor! Tão comovente! Quem escreveu isto? Para quem?
Abaixei a cabeça e atravessei a rua, constrangidamente. Todas as cartas de amor são ridículas, disse aquele grande poeta. Que nunca se saiba que aquela carta era minha, escrita na véspera, não enviada. Agora, sei lá se ainda me despeço ou se simplesmente sumo sem explicações. Reescrever tudo? Seis páginas! Sei lá. Era uma despedida longa.

Chegando em casa, quis verificar o que sobrara no CD. Abri o notebook sobre a mesa da sala. A escrivaninha estava tão entulhada que não havia mais espaço para ele. Das caixas de som, veio a mensagem:
– Atenção. Isto é uma gravação. Esta esquina provocará a destruição de todos os seus arquivos em trinta segundos.
Esquina? Que esquina? Aquela por onde passei?
Pressionei o botão de power num frenesi, sem me preocupar em desligar o sistema corretamente.

– É por isso que estou aqui –, expliquei ao técnico da autorizada, que me observava cético enquanto eu lhe entregava o CD e colocava o notebook sobre o balcão. Com cuidado, como quem larga uma bomba caseira no banco de um avião.

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