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MOTO-CONTÍNUO

Boats

Hoje olhei pra lagoa. Fazia frio, senti frio. Foi a primeira coisa que senti o dia todo. Passei o dia oco, nem triste nem feliz, num estado de espírito que me garantia que não há essa coisa de espírito, somente a carne-setenta-porcento-água e uns impulsos elétricos aleatórios e muito loucos que fazem a coisa inteira funcionar. Não se trata de autodestruição, até porque se só existe carne o melhor a fazer é cuidar da carne. E ir pra frente da lagoa sentir frio é parte disso, já que sentir frio é melhor que sentir-se oco — e os sentimentos, hoje me parece, são uns obstáculos xaropes no caminho perfeito da carne. A carne sentia frio, o treco que chamo de eu encontrou, ali pros lados das nuvens escuras e carregadas (vem chuva aí, eu penso, como se pensa em respirar, como menos que um pensamento) um barquinho. Não era um dos barquinhos do Mirisola em Bangalô, era um barquinho meu, de verdade, eu não estava lendo. Depois o barquinho virou de frente e eu deixei de ver a vela, e deixando de ver a vela deixei de ver um barco. Imaginei uma prancha com pequenas pessoas-formiguinhas agarradas. Imaginei não, eu vi. Hoje mais cedo eu era só carne, sem metafísica ou imaginação.

Quando uma lufada de vento me empurrou, perguntei pro meu irmão:

— Tu acha que sem desgraça não temos assunto?

Depois acho que não ouvi a resposta. Ou talvez a resposta dele e o vento fossem uma coisa só pros meus ouvidos tornados carne. Meus ouvidos mecanismos que não achavam diferença entre a linguagem verbal e o som do vento.

Fiquei falando desse assunto e de alguma outra coisa sobre a lagoa ser tão boa de observar como seria uma palestra de um escritor dez anos atrás. Não sei se ele me entendeu, mas isso não me importava no momento. Eu queria mesmo era ouvir pela primeira vez o som da minha voz. Que coisa prodigiosa esse aparelhinho de carne que vai modulando sons e estalos dos lábios criando esse mosaico de pequenos sons conectados. Que maravilha meus lábios quando observados assim, como máquina abstrata cujo produto é o próprio fim. Eu também, moto-contínuo de carne, impecável e vazio.

Fechei os olhos e quando eles se abriram lá estava eu, de novo, consciente de mim. Eu, à tarde, com trinta e dois anos, olhando a lagoa na qual passava um único barco, a uma distância considerável. Eu, fruto da dialética e da retórica, animal deformado, desaparecido na sensação indefinida que é “ser um”.

Então voltamos pra casa porque se aproximava nosso horário de ônibus. Ele ia ao cinema da universidade, eu ao reiki.

Eu cheguei a tomar banho e me vestir, mas desisti. Ele foi.

 

 

Imagem: Boats, óleo sobre tela, 1960, por Desmond Knox-Leet
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