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CAIXA DE MEMÓRIAS – O BALÃO

freedom

No dia em que completei oito anos, meu pai me surpreendeu com um presente inesquecível: um balão enorme, nas cores amarela e preta, onde estava escrito o meu nome e a data 29.06.1960.

Estávamos no quintal da casa de meus avós quando ele me sugeriu que escrevesse uma cartinha a São Pedro e me disse que, quando o balão chegasse ao céu, o santo porteiro ficaria tão feliz que atenderia todos os meus desejos.

E enquanto meu pai e seus amigos finalizavam os ajustes necessários no balão, sentei-me na soleira da porta da cozinha e redigi o que acredito tenha sido minha primeira correspondência (descontando-se, é claro, as cartinhas que já tinha escrito ao Papai Noel!).

Lembro-me de ter caprichado na letra e atendendo às frequentes solicitações (!) de minha saudosa professora, D. Mathilde Teixeira de Moraes, pingado todos os is e cortados todos os tês. Desenhei florezinhas e patinhos nos cantos da página e mostrei a carta a meu pai aguardando, ansiosa, que ele a lesse. No entanto, ele a dobrou e me disse: isso é uma correspondência particular, vamos deixar que São Pedro a leia. Não vou negar que fiquei desapontada, esperava um elogio se não pelo texto, pelo menos aos desenhos.

Percebendo meu desapontamento, meu pai me explicou que correspondência é uma coisa preciosa e ler a correspondência endereçada à outra pessoa é tão feio como espiar pelo buraco da fechadura ou ouvir atrás das portas.

Saímos todos: meu pai, seus dois amigos e eu, colocamos o balão na carroceria da camionete de três rodas e fomos até o aeroclube, que naquela época chamávamos de campo de aviação, para soltar o balão. Meu coração sacolejava mais do que a camionete que meu pai apelidou de “mamangava”, enquanto seguíamos pela estrada de terra poeirenta e esburacada.  Não sei se eu tremia de frio ou de emoção naquele início de noite de inverno. Sei que a estrela Dalva já faiscava quando o balão finalmente saiu do chão, começou a ganhar o céu e foi subindo, subindo, subindo, levando com ele meu recado a São Pedro.

Quando o perdemos de vista, retornamos à camionete e fomos jantar no Copacabana, agora só meu pai e eu. Pedi frango a passarinho, ele bife à parmegiana e de sobremesa ambos tomamos sorvete de chocolate, com calda quente.

Há mais de dez anos meu pai morreu. Recentemente vasculhando em seus guardados alguma referência ao mesmo aeroclube, no qual ele se brevetou em 1945, encontrei a cartinha que escrevi a São Pedro: Querido São Pedro: Feliz aniversário pro senhor também estou mandando este balão de presente que foi meu pai que fez pra mim e pro senhor. Eu queria muito que o senhor fizesse o meu pai e a minha mãe morar junto comigo de novo e queria também aquela caixa de lápis de cor de quatro partes. Obrigada da sua querida Henriette

E eu, que até então imaginava que São Pedro não gostava de balões, entendi que ele não atendeu meu pedido porque minha cartinha tinha sido interceptada. Entendi também porque, no dia seguinte, meu pai me deu outro presente de aniversário: a caixa de lápis de cor, com quarenta e oito cores.

 

Do livro Linhas Tortas, Editora A.B.R., 2008
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Sobre Henriette Effenberger

Brasileira, escritora, residente em Bragança Paulista-SP

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