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Churrasco

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Maio, cheiro da graxa desmanchando ao braseiro imiscuía flor de eucalipto. Fora apeando o baio que já avistaria o russo, lenço maragato e bombachas, botas cano-alto, pretas e lustro. Em pé, à frente dos outros, o sol lhe crestava a fronte e sombra competia com a de figueira. Viu quando fechou um dos olhos, apurando mira no outro. Cariótipo soviético, Dostô era sisudo, mas inspirava confiança.

Laçou moirão com a rédea, bateu pó do chiripá, se recompôs da troteada. Foi se achegando, passo descansado, sem-cerimônia.

– Buenas, chê!

– Dobro pozhalovat’! – chapéu bandeado, cuia na mão, o russo lhe daria meio abraço.

Esborrachada num banquinho, a voz de Johann saudou: “– Te aprochega, fifende!”

Goethe içou a obesidade, que preferia bombacha e alpercatas. Franco sorriso branco, despontando algum dente dourado, estendeu mão. No contínuo, apôs quebra-costelas. Seguiu praxe, um a um firmando mão, batendo paletas. Aboletou-se num cepo e recebeu, vez de visita, honra da servida. Porongo amoldado, reavivou roda.

Johann reacenderia: “– Chegaste em boa hora. O coroné ia mesmo se gabando dum sucedido.”

– Causo cabeludo! – arrematou Llosa.

As atenções foram para Graciliano. Pigarreou, deu pito ao palheiro e se aprumou: “– Entonces, como eu ia dizendo – e minha santa mãezinha do céu testemunhe verdade – tive um entrevero dos brabo. Lá pras bandas do Oiapoque…” E desfiou a arenga, qual calango matuto que ponha jacaninã em pé e ainda lhe atente rabo-de-arraia sem sofrer bote.

O mate prosseguia mão em mão. Antes da erva se dar por lavada, um naco, que já desossava, rompeu por aperitivo.

No seu canto, chiru Llosa há tempos desembainhara o três-listras. Guapo, rangia fundo à charla, chairando enquanto acoitava vez. Deu-se o primeiro a provar da minga, firmando osso quente na calejada, cravando dentes. A lâmina se incumbiria de porção, descendo rente ao bigode.

Fez-se agrado ao mulherio, lascas escolhidas. Johann chamou Clarice a lhes alçar prato. A patroa já fora noiva de um certo Whitman. Cismara com o americano a tratando por Cléris. Não era ela. Ou quando, açucaradamente, lhe desferia um honey, que mais soava a pônei. Noite qualquer, sonhara com ninhada de centauros lourinhos. Dia seguinte, desfez.

Da cozinha, as solteiras espiavam. As casadas comandavam, advertindo cebolas e limões, salada, suco e temperos. Alvoroço de chitas encobrindo brasas. Assanhando-se. Assando-se. Churrasco, que nada. Venha logo esse gaiteiro, traga bailanta!

– E esse moço que chegou há pouco, tia Clá?

– Te apiana, Flor!

Não fosse malagueta a pimenta, que se ardesse na prudência. E adianta?

– Mas ouvi dizer que faz verso, que declama…

– Só um almofadinha da cidade, metido a trovar nas canchas de osso.

– Tem nome ele, não?

Clarice bem sabia que é besteira aguar. Que água só faz espalhar. Que jogá-la às chamas só levantaria cinzas.

– Lhe chamam Pessoa. Um tal de Nando.

Clarice há muito sabia…

 

 

Imagem: Prosa Galponeira, óleo sobre tela, por Vasco Machado
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Sobre Jarbas Siebiger

Saga: porto-alegrense. Carma: aquariano. Cor: colorado.

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