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REDENÇÃO

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A claridade das primeiras horas da manhã tomava conta do ambiente. Porém uma réstia de sol mais audaciosa alojara-se nas partes íntimas daquele homem, cobertas apenas por um trapo encardido. Nem a prostituta que o acompanhara por grande parte de sua vida detivera-se com o olhar tão penetrante por entre aqueles farrapos que ocultavam a nudez frontal, como agora o fazia aquele feixe de luz.

Envergonhou-se daquele pensamento no mesmo momento em que o tivera. Persignou-se, pediu perdão pelo sacrilégio que cometera, tentou orar e elevar seus pensamentos. Não conseguindo, levantou os olhos em direção aos da imagem. Estavam semicerrados, a boca entreaberta, a cabeça levemente pendente sobre o ombro. Talvez também se deixasse abandonado assim depois do orgasmo… Constrangida, ensaiou a conhecida oração: “Pai nosso, que estais no céu…” Ele, com certeza, não a ouviria… Como chamar de irmão àquele homem nu, a sua frente, que a impedia de rezar ao Pai? Sentiu um calor percorrendo-lhe a face, deixando-a afogueada; o suor escorria por entre os seios, todo seu corpo estava umedecido. Entre as pernas sentia-se tão molhada, que receou estar menstruando. Era impossível! Suas regras haviam parado há três dias…

Ouviu o soar da sineta chamando para o café da manhã. Mais uma vez atrasara-se nas orações matinais e deixara de ajudar no preparo das mesas. Novamente, Irmã Lídia iria lhe chamar a atenção. Antes de se retirar da capela deu uma última olhada no Cristo crucificado, evitando olhar para a figura de Maria, a qual, provavelmente, a recriminava.

Um pé de vento bem humorado levantava as saias sobrepostas do hábito confeccionadas com um tecido mais leve especialmente para o verão, como a lhe dizer: Descubra-se! Há um mundo cheio de sensações a ser explorado. Liberte-se!

Não daria ouvidos a um vento maluco qualquer, oras! Afinal, passara quase toda sua vida entre aquelas paredes, convivendo com pessoas que se dedicavam inteiramente à assistência social e às orações. Nunca achou que fosse uma coisa tão horrível viver assim, e, pelo menos há até pouco tempo atrás, não conseguiria se imaginar vivendo de outra maneira…

Então começaram os sonhos: noites a fio era perseguida por imagens que nunca conseguia traduzir em palavras. Sons, luzes, sensações, misturavam-se e confundiam-se.

Às vezes, seres luminosos eram ao mesmo tempo o som que produziam e o calor que transmitiam. Sempre acordava tentando decifrar o que sonhara e durante as primeiras orações, rememorava as sensações com a intenção de retê-las durante o resto de seu dia. Passou a aguardar o horário de dormir com ansiedade. A mesma ansiedade que lhe provocava insônia e que retardava cada vez mais o seu prazer fazendo com que conciliasse o sono somente quando a madrugada já ia alta. Poucas horas depois a sineta do despertar era acionada e precisava reunir toda a dose de disciplina que obtivera ao longo dos anos para interromper o sonho e levantar-se para as obrigações rotineiras.

Na noite passada foi diferente. Tivera um dia tão cansativo que mal terminara as preces noturnas deitou-se na cama simples da clausura que dividia com Irmã Aurora e praticamente desmaiara.

Seu primeiro sonho foi com o que passara a chamar de sons de anjos. Estava ainda absorvida pelas luzes, sons e imagens que se entrelaçavam quando percebeu a chegada do homem perto de si. Nem mesmo quando ele começou acarinhar seus cabelos, passando a mão levemente por sua nuca, deu-se conta de que a sensação que sentia não provinha dos seres que a rodeavam e sim de seu próprio corpo.

Sentiu-se beijada nos lábios e correspondeu ao beijo, abandonando-se às emoções sem se preocupar com o que as despertara, permitindo-se sentir todo seu corpo estremecer ao contato da boca daquele estranho que a invadia.

Ainda não conseguia distinguir as feições do homem que a possuía com tanto amor e suavidade.

Tentava fixar-se no rosto, mas como lhe acontecera nos sonhos anteriores, a imagem se confundia com sons e luzes. Via apenas o dorso do homem magro sobre seu corpo, tateou por suas costas podendo sentir os ossos salientes da coluna vertebral, depois buscou a mão do companheiro e quando conseguiu segurá-la, um misto de prazer e horror a assaltou ao constatar nela uma grande chaga.

Acordou em pânico e banhada de suor muito antes do toque da sineta.

Levantou-se com cuidado e temendo acordar Irmã Aurora dirigiu-se ao banheiro na penumbra.

Tomou uma ducha fria e sobre o corpo, ainda envolvido na camisola de dormir, passou o sabonete evitando tocar-se diretamente, por recear que as sensações do sonho se repetissem.

Sabia que deveria conversar com a Madre superiora sobre o ocorrido, mas o simples pensamento a apavorou de tal forma dando-lhe a certeza de que jamais conseguiria. Talvez, o mais correto fosse falar diretamente com seu confessor, ele, então, indicaria as penitências e flagelações que a afastariam definitivamente dos sonhos blasfemos.

Irmã Aurora estranhou seu despertar prematuro, pois se acostumara a vê-la, diariamente, lutando contra o sono. Temendo ouvir um comentário qualquer sobre seu repentino madrugar, evitou o olhar da companheira, como se o dividir o quarto com a outra desse a ela o dom de lhe adivinhar os sonhos.

Murmurou um “Bom dia” quase inaudível, seguido pelo “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!” e, rapidamente, encaminhou-se para a capela com a intenção de penitenciar-se. Percebeu a inutilidade do gesto, quando ao chegar, logo notou a réstia de sol sobre o corpo mal coberto do crucificado…

Enquanto segurava as saias e discutia com o vento que insistia em zunir obscenidades em seus tímpanos, foi flagrada pelo timbre da voz estridente de Irmã Lídia: — “Atrasada de novo, irmã! Muitas pessoas esperam por seu pão, mais necessitadas dele de que o Cristo de suas orações. Estômagos roncam, irmã! Pernas enfraquecem! Espíritos só se fortalecem quando o corpo está bem alimentado!”.

Pensou em inventar alguma desculpa pela demora, mas não conseguindo dizer nada que a justificasse pegou a pesada cesta com pães e dirigiu-se ao pátio, onde a fila de indigentes que passara a noite no albergue a aguardava de olhos baixos e canecas na mão.

Pela primeira vez em muitos anos olhou nos olhos daquelas pessoas ao entregar o mísero pãozinho, enquanto Irmã Aurora servia o chá fumegante.

Eram seres amedrontados e desanimados que se confundiam entre si. Como se fossem ao mesmo tempo a tristeza e o odor da miséria que exalavam. Cheiravam ao fracasso e à desesperança. Ao olhar para cada um deles mentalmente pediu perdão a todos por não amá-los o suficiente. Era humana…

Serviu o pão como se ministrasse a eucaristia…

Um entre os mendigos talvez tivesse entendido como ela se sentia, pois segurou nas barras de suas vestes e as beijou.

Em seguida, olhou profundamente para aquela freirinha abnegada, com brilho quase divino no par de olhos azuis, que ela sabia reconhecer de algum lugar.

Tentou se desvencilhar, retirando bruscamente o hábito das mãos do intruso, mas ao olhar para elas, percebeu em cada uma um ferimento, como aqueles causados, antigamente, nas crucificações…

Subitamente entendeu os sonhos e percebeu que não eram sacrílegos. Cristo mostrou-se humano, como há dois mil anos, para que ela entendesse que a união entre o divino e o terreno pode se dar nas pequenas coisas: no servir o alimento, no estender a mão, no olhar piedoso e solidário. Ela era humana, com desejos humanos e com as imperfeições humanas, mas acalentava em seu coração a centelha divina e a dividia com seus pobres…

Uma música celestial invadiu seus ouvidos e confundiu-se com o olhar azul do indigente, finalmente, ajoelhou-se e, em paz, pode orar: “Pai Nosso, que estais no Céu…”.

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Sobre Henriette Effenberger

Brasileira, escritora, residente em Bragança Paulista-SP

2 comentários em “REDENÇÃO

  1. Obrigada, Mailton!

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  2. Obra de arte. Maestria de criação!

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