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vórtices

maxres

Vaga e oca ela observa os vórtices no céu claro estendendo dedos alongados e fantasmagóricos procurando por ela. Encolheu-se um pouco na poltrona quando um deles passou mais perto, sentiu a energia, mas suspirou sabendo-se protegida e invisível. Avançava em direção àquele lugar que já está começando a considerar um lar. Seu coração estava apertado e ela instintivamente apertava o medalhão que trazia escondido sob a blusa. Os cabelos avermelhados pelas longas horas passadas sob o sol caíam em cachos espiralados sobre seus ombros nus.

Parou um instante, a cabeça encostada ao volante. As nuvens pareciam um rebanho de ovelhas em fuga, bordadas num azul intenso e luminoso. Sem pensar muito no que fazia ela o procurou. O olhar fixado na direção que ele havia escolhido como sua, vasculhou os ventos em busca de um sinal de sua presença, mas nada encontrou. Ele sabia se esconder tão bem quando não queria ser encontrado que a busca era inútil. Ela desistiu.

Fechando os olhos podia rever a menininha curiosa e ansiosa que ela um dia foi sendo guiada pelos pais até o mestre. Ainda podia ver o sorriso dele, ainda sentia o gosto da ansiedade e do medo que sentiu no primeiro beijo. Podia sentir a raiva que sentira quando ele a mandou embora. Estava tudo ali guardado em suas lembranças, escondido entre seus sonhos.

Abriu os olhos e perdeu-se na observação da estrada e em vigiar o vórtice que se aproximava. Precisava fechar-se também, bloquear todos os canais e afundar no mar de pensamentos corriqueiros para que nem mesmo ele a encontrasse.

Podia sentir que estavam perto, perto demais. Não pretendia voltar, não podia mais negar quem era. Por isso estava voltando, para reaprender, refazer os caminhos e no processo reencontrar a si mesma. Nunca aceitou muito bem os métodos dele, nunca falaram exatamente a mesma língua exceto na cama.

Lembrava-se de uma discussão com o amigo, numa manhã de primavera. Estavam deitados na grama, os pés descalços mergulhados na água fria do lago.

— Não seja tonta — disse caçoando — ninguém em sã consciência renega esse poder! Você mesma não renega completamente, andou pesquisando e treinando, não foi? Arrancou de mim toda a informação que podia e eu te ensinei o melhor que pude!

Ela sentiu-se de novo inundada pela raiva. Poderia ter se afogado nela. Ela não escolheu, apenas aceitou os fatos. Havia aprendido muito, tornara-se eficiente deixando de ser distraída, embora ainda fosse crédula e muito descuidada com sua própria segurança, é verdade, mas ainda assim muito capaz.

— Eu não preciso de vocês. Nem de você nem de ninguém. Eu só preciso… Acreditar em mim mesma e posso perfeitamente viver sem isso!

Ele gargalhou e pondo-se sobre ela, prendeu seu rosto entre as mãos e deu-lhe um beijo.

— Você é pura magia, mesmo que não use seu maldito medalhão. E eu preciso de você, vem morar comigo? Quebro meu medalhão se você disser que sim e até compro o maldito carro se quiser, embora voar seja bem mais rápido e eu sem minha mágica perca metade do meu charme e me sinta a mais desprotegida das criaturas, eu faria isso por você!

— E as pessoas ainda te acusam de ser manipulador? Que injustiça! Você é o rei dos manipuladores! — ela o beijou sem pressa. Você está certo é tolice minha… Não consigo imaginar você num carro comigo.

A lembrança se foi assim como ela o abandonara há muito tempo, junto com outros pequenos sonhos.

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Sobre Rosa Cardoso

Pseudo-poeta! Batizei-me assim quando ,depois de ler Bandeira , atrevida e teimosa cometi uns versos. Li e os achei esquisitos e parecidos comigo. Adotei-os. Os contos vieram depois e nasciam meio mortos. Os leitores reclamavam : Onde está o final? Sofria buscando dar um final aos natimortos. Isso foi antes. Passado, pretérito mais que perfeitinho, agora quero sinceramente que os finais se danem. Não gostou? Inventa um. Se for legal me mostra.

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