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Mergulho

mergulho

O corpo pouco equilibrado já mergulhado
lembra o salto de gigante
era a vida a fechar-se duas vezes
um quarto de olhar à superfície
e um aviso para não resistir do outro lado
que afinal talvez existam
as hierarquias dos anjos

um reflexo turvo na água
desenhava os mortos de cada um
as ruas que voavam para trás
o aceno das mãos
que com elas se afastavam

talvez numa só hora
deslocada para o lado com cuidado
(que na direcção de arrancar uma hora
todas as forças a imobilizam)

perante o fundo de um olhar
em marcha silenciosa
as horas passadas acenam também
à medida que vão ganhando rasto
e alguma beleza em serem ultrapassadas

a marcha parece mais lenta
relativa a um comboio que se vai despenhar
apenas três sinais possíveis ao silêncio
(os mesmos que existem no fundo do mar)
o sinal de regresso

e as horas passadas imóveis agora
estancadas à volta daquela pequena insistente
que tão bem dançava à superfície
sem perguntas nos bicos dos pés
aquela hora feliz
insubmissa ao rasto
como um cometa à procura de um assobio no universo

aquela hora era feita de sopro ao acaso
talvez mais leve que o ar
e ali se interpunha ao mergulho

à hora da morte
como o zumbido de uma mosca

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