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CARTA DE DESAMOR

carta

João,

Eu poderia começar esta carta de tantas formas diferentes, mas todos os caminhos levam a Roma. Foi lá que tudo perdeu o sentido. A verdade (sempre a verdade, seja lá o que isto queira dizer) é que só amei um homem. Amar é pouco. O que eu trago no peito e na pele não deve ser amor. Esse homem me tem quando quer. Acredite: nunca reclamo. Logo eu que te sufoco com minhas queixas. E todos os nãos. Como é possível negar tanto a você e não sentir o menor vestígio de culpa?

Tua nobre condescendência me libertou de qualquer moral. Desci ao pior de mim, mergulhada na sombra que se delineou ao teu lado. Encarnei o papel da eterna insatisfeita, apenas pelo capricho de te atormentar com a ideia de que nunca vislumbraria, em meus olhos, o menor traço de admiração, alegria ou prazer. E você aceitava tudo, cada vez mais dependente de minhas constantes humilhações. Transformei nossos dias e noites numa espécie de solidão quase palpável. Tua tristeza discreta (pra que ser tão contido?) nunca me comoveu.

Talvez tudo tivesse sido diferente sem nossa última fotografia em Roma. O que era aquele vazio no teu olhar apagado? Tamanha opacidade, por um brevíssimo momento, despertou minha atenção. Parece que você estava se despedindo da vida. E foi então que entendi. Eu me tornei tão cruel a ponto de querer a tua morte. Por isso, decidi sair de casa antes que esse desejo perverso tome conta de mim. E seja tarde demais para evitar um tiro.

Maria

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Sobre Dolce Vita

Meu nome é Cristina Taiar. E meu pseudônimo "Dolce Vita", fruto da minha paixão pelo cinema. Sou psicóloga clínica, e há sete anos mantenho um site onde publico contos inspirados em imagens. A partir de 2014, comecei a me aventurar também como roteirista. Em parceria com um amigo residente nos Estados Unidos, escrevo roteiros de curtas-metragens que ele dirige e produz em Atlanta. O cinema tem me ensinado a ser econômica ao contar uma história. Por isto, descarto os rodeios, mas adoro uma reviravolta.

Um comentário em “CARTA DE DESAMOR

  1. Porque todos os caminhos levam a Roma, natural que os finais lá se iniciem. Interessantíssimo e inteligente, o conto flui para lá…

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