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HEDONISTA

hedo

Ele piscou para mim.
Andei mais cinco passos e parei em frente à vitrina de uma loja de jeans. Engoli em seco. Ajeitei a gravata da minha imagem refletida no vidro. Que absurdo. Sanduíche não pisca.
Mas foi como se piscasse. Me chamando.
Limpinho, na caixa branca de isopor. A caixa meio aberta, o hambúrguer lá dentro. Uma pérola na ostra aberta. Vai virar poeta, vai? Por causa de um sanduíche?

Não; mas fora de brincadeira. Inteirinho. Quem comprou — deu uma dentada só. Nem isso. Meia dentada. Uma dentadinha de nada. Será que o sanduíche é ruim? Não. Não deve ser isso. O cara estava sem fome. Tinha dinheiro sobrando. Comprou, mordeu, jogou fora.
Vai ver era uma criança. Mãe, compra um sanduíche? Compra, vá! Sem fome, mesmo, só mania de criança de pedir tudo. E a mãe acaba comprando. Aí o menino dá uma mordida, pronto, joga fora. A mãe fica irritada, esse menino!

E o sanduíche limpinho na caixa me esperando. É só voltar cinco passos, estender a mão, pegar. Ninguém vai notar.

Ninguém, hein? Um cara de terno e gravata, vai lá e mexe na lata de lixo? E sai com um sanduíche? Capaz até de ter algum fotógrafo por aí. Um desses caras que estão sempre esperando a foto da vida. Clic, o engenheiro na lata de lixo. Vítima da recessão. Vítima da recessão mesmo, e daí? Procurando emprego há dois meses, pensa que é mole? Um homem do meu tamanho? Quantas calorias você acha que eu preciso por dia?

Depois de um mês resolvi não almoçar mais. Foi bom, perdi a barriga.

Vou voltar lá e pegar esse sanduíche.

Parece incrível. Um minuto atrás não tinha ninguém na rua e agora de repente ficou cheia de gente. Parece que todo o mundo está olhando para mim.

Que foi, nunca viu?

Fico aqui rondando a lata. Vai, coragem. Pega o sanduíche de uma vez. Ninguém vai notar. Pensa que alguém se importa com você? Ninguém tá nem aí; ninguém tá prestando atenção.

Pior é aquele ali, ó; aquele ali vai pegar o meu sanduíche. Se pegar, pulo no pescoço dele. Não — dou um esbarrão como se fosse sem querer, derrubo o sanduíche, pego do chão.

Que foi? Porque é que ele não quis? Porque é que foi embora sem levar nada de dentro da lata? Um pé rapado morto de fome como aquele? Que é que ele viu de errado no sanduíche?

Sabe lá. Sabe lá quem foi que mordeu esse negócio, vai que tinha alguma doença. Tanta doença pra se pegar hoje em dia. Por que é que ele não quis o sanduíche, afinal? Mendigo tem prática, ele deve saber alguma coisa que eu não sei. Olhou o hambúrguer e viu que estava estragado. Ou contaminado. Será? Tão bonito, aquele pão. Acho que não. Estragado, não.

Não acredito que sou eu aqui, nesta situação. Cadê o hedonista? Eu me orgulhava de ser um hedonista.

Hedonista… para ser hedonista tem que ter grana. Pensa que é só uma questão de filosofia de vida? Experimenta ser hedonista depois de procurar emprego por dois meses. Experimenta chegar em casa e olhar para a cara da sua mulher e dizer que engenheiro civil é coisa de que ninguém precisa, experimenta. Hedonista…

O que eu queria mesmo era um sushi com um sakê gelado.

Queria nada, deixa de frescura. Você queria um pratão de arroz, com feijão e ovo. Com a fome que você tá.

De fora de mim vejo a cena: o homem sai da frente da vitrina diante da qual passeia há mais de vinte minutos, anda até a lata de lixo junto à lanchonete, mergulha a mão rapidamente na lata e se afasta depressa comendo um hambúrguer.

Alguma coisa me diz que esta cena vai se repetir muitas e muitas vezes.

 

 


Do livro Posto de Observação, publicado em 1996, com edições no Brasil e em Portugal.

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