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Pai Nosso

green-eyes

Vamos em paz e que o Senhor nos acompanhe
Graças a Deus!

Na sacristia retirou os paramentos verdes da missa do 14º Domingo Comum, os colocou no armário como fazia há quase sessenta anos e passou a mão nos ralos fios de cabelos brancos, ajeitando-os. Maria Cecília o acompanhava, como sempre, desde que assumira a paróquia há quatro décadas.

— Espero pelo senhor no carro, padre?

— Não, Cecília, pode ir… Prefiro caminhar até em casa.

— Mas está frio, o senhor ainda não se recuperou da gripe…

— Pode ir, Cecília, vou andando.

— Padre…

— Vai, Cecília… Que coisa! Já disse que vou andando, não preciso de babá…

Vestiu o paletó de tweed, o mesmo de muitos invernos, ajeitou o cachecol, apalpou um dos bolsos internos para confirmar que o maço de cigarros estava ali e colocou no outro bolso os donativos do ofertório: R$ 214,15. Ironizou: — A féria do dia… Cada domingo mais minguada. Tomara que os fiéis contribuam de acordo com seus pecados — pensou.

Olhou pela janela da sacristia e percebeu que alguns paroquianos ainda estavam conversando defronte à igreja e que Maria Cecília, dentro do carro estacionado, o esperava. Resmungou: — que saco! Sentou-se em uma cadeira, acendeu um cigarro e ficou esperando o tempo passar até que não restasse mais ninguém lá fora. Não tinha o hábito de bater o cigarro e o borrão formava uma escultura de cinzas parecida com aquela figura no verso do maço, alertando que o fumo poderia causar impotência sexual. Nunca se incomodara com a figura, nem com os alardeados perigos do fumo. Em primeiro lugar porque, quando jovem, muitas vezes desejou a impotência. Teria recebido a disfunção como uma graça divina que tornaria mais fácil o voto de castidade, feito na mais tenra juventude e nunca quebrado. Agora, nesta altura da vida, talvez estivesse impotente mesmo, pois há muito tempo não sentira mais nenhuma reação em seu órgão sexual. Não precisava se penitenciar pelos pensamentos impróprios e as mulheres com ancas largas não mais atraíam sua atenção. Benefício da idade, mas que chegara junto com a próstata crescida e as inúmeras idas ao banheiro; com a artrose que endurecia suas articulações e quase o impedia de ajoelhar-se; com a vista cada vez mais fraca dificultando a leitura da Bíblia e do Evangelho.

A cinza do cigarro cai ao chão. Automaticamente passa o pé sobre ela e outra vez olha pela janela. Os outros já se foram, Cecília ainda o aguarda. Resolve sair. Novamente ajeita o cachecol ao redor do pescoço, passa os olhos pela sacristia, puxa a porta com um solavanco e a tranca. Ignora Cecília e sai em direção à sua casa. Ouve a partida do motor e pressente que o carro o segue. Continua ignorando, quando o automóvel o alcança:

— Sobe, padre, eu levo o senhor até sua casa…

Finge não escutá-la, apressa o passo, olhando para frente, demonstrando-se claramente mal-humorado com sua insistência. O automóvel continua acompanhando-o rente ao meio-fio até que chegam à pracinha e ele, deliberadamente, a atravessa tomando o caminho inverso de sua casa. Cecília, resignada, acena depois de um toque na buzina e acelera na direção oposta.

Ele sente o efeito do caminhar apressado: a respiração está ofegante e o coração disparado. Senta-se em um dos muitos bancos vazios e seu olhar desfocado pousa sobre um papel colorido jogado no chão. Tenta adivinhar do que se trata para evitar o trabalho de curvar-se para apanhá-lo, não consegue. No entanto o papel o chama. Sua atenção desvia-se da incômoda taquicardia para aquele catálogo repleto de figuras e letras que, de onde está, não consegue decifrar. Rende-se à curiosidade e com dificuldade dobra os joelhos e o apanha.

No folheto, jovens mulheres seminuas sorriem para ele e o convidam para a inauguração de uma boate. Olha para os rostos cobertos de maquiagem pesada e mentalmente os compara com os das moças que frequentam os grupos de jovens da paróquia. Tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Nos olhos de cada uma delas vê a mesma fé: as primeiras no mundo e as segundas no Cristo crucificado.

Guardou o catálogo e já refeito do cansaço retomou o caminho andando calmamente até chegar a sua casa. Como de hábito, apertou o play do aparelho de som e Mozart tomou conta do ambiente com Kyrie Eleison. Serviu-se de um cálice de vinho do Porto, acendeu mais um cigarro e lembrou-se da mulher que, recentemente, o criticara por fumar:

— Francamente, Padre… Não sei como o senhor ainda continua fumando, principalmente perto dos jovens. Que exemplo o senhor dá a eles? Eu odeio, o-de-io… gente que fuma…

— E eu amo todas as pessoas… Este é o exemplo que dou a eles — respondera sinceramente.

Tirou o paletó e colocou o catálogo sobre a mesa. Novamente as moças das fotos chamavam por ele:

Hoje — domingo — 23 horas — inauguração da Boate Flash Dance — Venha conhecer Karina e Keila — as gêmeas recém-chegadas do Paraná.
Trevo da Rodovia Capitão Honório Mendes

A Orquestra Sinfônica de Budapeste agora executava o Agnus Dei enquanto os enormes olhos verdes das gêmeas o observavam. Novamente tomou o catálogo nas mãos e percebeu que os sorrisos congelados naquela foto não eram falsos. Eram tão autênticos como os de suas jovens paroquianas.

Agnus Dei, Filius Patris, qui tollis peccata mundi, miserere nobis. Qui tollis peccata mundi, suscipe deprecationem nostram

Olhou para o relógio sobre a lareira, marcava 21h30. Não tinha nada muito definido em sua mente, mas tomou um banho quente, barbeou-se, abusou da loção após barba, vestiu calças jeans, camisa de flanela azul marinho, um pulôver de cashmere azul claro, trazido da última viagem a Buenos Aires e dispensou o paletó de tweed transferindo o conteúdo de seus bolsos para o sobretudo preto, também trazido da Argentina. Por último, colocou o chapéu e sentiu-se pronto. Lembrou-se de que não tinha jantado, foi até a cozinha e mastigou rapidamente um pedaço do queijo que havia cortado para saborear junto com o vinho do Porto e que acabara esquecido sobre a pia. Acendeu mais um cigarro enquanto dava a partida no automóvel antigo, mas muito bem conservado.

No painel do carro o relógio marcava 22h30, mais dez minutos e chegaria à boate antes do início da sessão. Esperava avistar da estrada um local iluminado por letreiros de néon, onde as letras também dançariam: Flash Dance! Mas o que viu foi uma pequena casa, à beira da pista, com um fio de lâmpadas coloridas, azuis, vermelhas e amarelas que se alternavam e nem piscavam. Letreiro não viu nenhum. Não fosse por alguns (poucos) automóveis estacionados iria pensar que se enganara de endereço.

Estacionou debaixo de uma mangueira, desceu do carro, certificou-se de que todas as portas estavam travadas e acionou o alarme. Ao dirigir-se à entrada uma das gêmeas (Keila ou Karina?) aproximou-se dele e o conduziu até uma mesa em frente a um pequeno palco, onde um violonista solitário executava um samba-canção da década de cinquenta:

Alguém como tu, assim como tu, eu preciso encontrar

O salão, parcamente iluminado por luzes azuis colocadas estrategicamente de forma a não identificar os frequentadores, era também pequeno e mal ventilado. Dispunha de meia dúzia de mesas, duas delas ocupadas por homens aparentemente bêbados e rudes, onde a outra gêmea ouvia, com visível desinteresse, comentários sobre o jogo de futebol daquela tarde.

Novamente a gêmea dirigiu-se a ele, perguntando o que gostaria de beber. Pediu vinho e ela trouxe numa jarra, sem qualquer menção da procedência. Perguntou se queria companhia, ele aceitou.

Da corrente, que a moça usava no pescoço, uma medalhinha quase entrava seio adentro através do decote pronunciado. A penumbra e a vista fraca o impediam de identificar o santo.

— É Santa Rita, sou devota. Ela sempre me protegeu e me atende em todas as aflições.

— E o que você pede a ela?

— Tudo.

— E ela sempre concede as graças?

— Quase sempre. Ultimamente não tem me ouvido. Acho que estou pedindo mais do que mereço…

— E o que você está pedindo?

— Um marido… Talvez ela não tenha me ajudado nisso porque foi infeliz no casamento…

— Ela salvou o marido do inferno, completou o padre.

— É, mas não me tira deste inferno — retrucou a moça. Depois deve ter se arrependido e disfarçou, gargalhando:

— Você não veio aqui para falar de Santa Rita, veio?

— Talvez tenha vindo, não sei… E você, quer falar de quê?

— Não quero falar, quero dançar… Você quer?

— Acho que não. Prefiro conversar com você.

— Você tá brincando? Veio aqui pra conversar… Sei… Quer subir?

— Subir?

— Ou veio aqui pra beber? Se veio pra beber vou avisando, tome cerveja, este vinho vai lhe dar uma puta dor de cabeça…

Queria mesmo conversar com ela, saber como tinha sido sua infância, que caminhos a levaram até aquele lugar.

Muito embora toda sua vida tivesse sido dedicada aos jovens, a ouvi-los, a evangelizá-los, não sabia como falar com aquela moça; não sabia como ajudá-la e nem ao menos se ela procurava ajuda.

Subitamente entendeu que era a batina e a igreja que aproximavam os jovens dele e não sua personalidade ou o seu discurso. Ali, fora de seu palco, deixara de ser protagonista, passara a ser apenas espectador. A gêmea não sabia que ele era padre, talvez acreditasse que ele fosse apenas um velho tarado a procura de mulheres que tinham idade para serem suas netas. O que poderia ser verdade, caso tivesse escolhido o caminho do casamento, se tivesse gerado filhos, se tivesse formado uma família…

— Quer cerveja?

— Não, vou correr o risco e continuar tomando vinho…

— Você é que sabe…

— O que eu sei? Não sei nada… — Foi o pensamento que lhe ocorreu. Cinquenta e sete anos de sacerdócio, dia após dia consagrando hóstias, distribuindo o Cristo, falando dos Seus ensinamentos, louvando a Deus ao levantar-se e ao deitar-se, ministrando sacramentos: batizando, casando, enterrando pessoas e não sabia nada do mundo e dos homens. Não encontrava o que dizer a uma jovem que entregava seu corpo com a mesma desenvoltura que servia a bebida e que em suas orações à Santa Rita só pedia um marido. Nem exigências ela fazia: talvez até aceitasse um marido bêbado e rude como um daqueles homens da outra mesa; um marido que reclamasse da comida quando chegasse em casa; um marido que lhe emprenhasse com meia dúzia de crianças famintas e subnutridas e de vez em quando lhe batesse para que ela não se esquecesse de que tinha um dono.

Oh, Deus! Deus? Que Deus é esse que entrega o mundo e seus prazeres a algumas pessoas e não atende as preces de uma prostituta? Será que esse Deus para quem ela rezava era o mesmo a quem ele glorificava? Será que existia um Deus, Todo Poderoso, criador do Céu e da Terra? E teria sido mesmo Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor? — Rememorou as palavras do Credo e, de repente, percebeu que já não cria.

A moça pediu um cigarro, fumaram juntos. A cinza do cigarro dele formava a conhecida escultura. Olhando a fumaça subindo ao teto qual a do incenso que espargia nas liturgias sacras, mentalmente a abençoou.

Por que a fumaça do tabaco seria diferente da mirra? Não era. Tudo são convenções: o sagrado e o profano. O pecado e a virtude. O bem e o mal. Deus e Lúcifer. Símbolos usados desde sempre pela sociedade maniqueísta para submeter as pessoas: chama de prostituta quem troca o corpo por dinheiro ao mesmo tempo em que nomeia virtuosa a esposa que acolhe, sem cobrar fidelidade e respeito, o marido que a sustenta. Seriam ambas prostitutas? Vendem-se e servem aos homens… E Deus, dará o céu para uma e o inferno para outra? Qual será o critério Dele na hora em que as trombetas tocarem e todos forem chamados para o juízo final?

E ele, como seria julgado? Recompensado pelos sacrifícios que impusera a seu corpo ou cobrado por ter renunciado ao dom da reprodução? Pois não fora Ele mesmo que dissera: Crescei e multiplicai-vos?

Pela primeira vez na vida sentiu sua fé desestruturada. Pior, entendeu a inutilidade desta fé que cultivara sublimando desejos. Arrogando-se o direito de julgar os atos de seres tão humanos quanto ele, tachando-os de pecadores, impondo penitências e, pretensiosamente, perdoando-os… Desde o início de seu sacerdócio, quando atendia mendigos e crianças abandonadas, sustentava a convicção de que Deus possuía um plano para as pessoas desprotegidas e que ele, o padre, era uma peça decisiva do projeto celestial. Sentia agora que só foram úteis o prato de comida que serviu e a roupa que os agasalhou, pois as palavras que proferiu, pregando a aceitação pelos desígnios divinos, apenas mantinham os miseráveis anestesiados, resignados à exclusão social imposta pelos poderosos.

Cinquenta e sete anos de ministério e no entanto precisou estar em um bordel para entender que Deus, como todos os poderosos, estava se lixando para os desamparados…

A gêmea, que o padre descobriu ser Karina, desistira de dançar ou de levá-lo para cima. Ficou ali, sentada, fumando e bebendo enquanto ele olhava para lugar nenhum.  Tentou colocar as mãos no joelho do homem e ele a repeliu com um gesto suave.

Não tinha nada a dizer a ela. Antes de sair, enfiou a mão no bolso do sobretudo e entregou à jovem os R$ 214,15 — valor da consciência de seus fiéis. Era pouco pelo que a sociedade lhe devia.

Os vidros do carro estavam embaçados, com cuidado deu marcha-ré, manobrou e voltou à estrada.

Do céu de inverno uma lua cheia iluminava o relógio no painel do carro que marcava 2h45. Quando criança, sua mãe lhe dizia que essa era a hora da morte.

As placas na estrada indicavam, à frente, uma curva em S. As dúvidas o abandonaram e uma certeza o invadiu:

— É agora, Deus, que vamos ver se Você existe mesmo ou se desperdicei a minha vida…

E pisou fundo no acelerador.

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Sobre Henriette Effenberger

Brasileira, escritora, residente em Bragança Paulista-SP

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