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Véio China e a Sessão Espírita

Cara_mujerFazia uma penca de meses que eu não falava com o Véio. Não que houvéssemos nos desentendido, por dinheiro ou mulheres, únicos motivos para dois homens adultos e imaturos se digladiarem. Nem mesmo questões literárias, já que a admiração era mútua. Em verdade, havia eu abandonado por uns tempos a esbórnia etílica da qual, vez por vez, nós éramos parceiros. Necessitava de um afastamento da vida mundana em virtude de certas escolhas. Como dizia um amigo em comum, “evangélico até o último fio do rabo”, segundo o China; eu agora “servia aos espíritos”.  À época da minha conversão, expliquei ao Véio os motivos de tal escolha. Ele olhou de lado, bebericou do seu bloody Mary e soltou o seu já clássico: “Talsquepariu, cumpade Lameleque!”

Contudo, ele não estranhou o meu telefonema naquele começo de tarde.

— Véio China?

— Veja se não é o meu cumpade Lameleque! — saudou-me em voz pastosa para em seguida fulminar — Ainda anda naqueles trecos de falar com os mortos?

— Na verdade, é este o motivo do meu telefonema. Um espírito baixou numa sessão mediúnica e deseja levar um lero contigo — revelei desprovido de delongas.

Breve silêncio do outro lado da linha.

— Homem ou mulher, cumpade?

— Espírito não tem sexo, mas eu diria que ele tem uma personalidade feminina.

— Mulher? Então eu estou dentro. Quando é a sessão?

— Próxima terça-feira, às 20 horas. Eu te pego em casa e, Véio, por favor, esteja sóbrio.

— Cumpade Lameleque, vá cagare! Te espero às sete e meia.

Na hora marcada eu estacionei em frente à pensão onde o Véio se escondia e britanicamente vi a sua figura surgir através do umbral da porta. Era o mesmo China de sempre. Aquele jeitão desleixado, terninho amarrotado, cabeleira branca penteada para trás e os indefectíveis óculos escuros. Percebi então que nunca havia visto o China sem aqueles óculos, fosse dia ou noite.

Cumprimentou-me com o entusiasmo de sempre e dentro do carro relembramos farras, bebedeiras e encontros literários. Véio demonstrou interesse na sessão espírita, perguntou o nome da morta e diante da minha resposta percebi uma interrogação surgindo em sua testa enrugada.

— Norma? Não me lembro de nenhuma Norma, cumpade.

— Talvez seja uma conhecida de outra encarnação.

— Ou a identidade verdadeira de uma falecida piranha. Vai ver que eu só conhecia pelo nome de fantasia, nénão?

Chegamos ao centro espírita poucos minutos antes do início da sessão. Apresentei o Véio aos outros participantes da reunião, não mais de cinco ou seis gatos de meia-idade pingados. Véio interessou-se pela mecânica da sessão e lamentou que os kardecistas não se utilizassem de uma bebidinha para atrair os espíritos, comentário que constrangeu os participantes, em especial dona Dalva, poderosa médium de efeitos físicos e cara de Jabba do filme Guerra nas Estrelas.

Fomos todos encaminhados para uma sala no segundo andar do centro, onde uma grande mesa forrada com uma tolha branca era a coadjuvante da decoração em que se destacava uma cabine de madeira cujo portal era protegido por uma alva cortina. Dona Dalva dirigiu-se para o reservado enquanto o restante do grupo sentou-se em volta da mesa.

O coordenador do grupo leu uma mensagem preparatória e fez uma prece rogando sucesso para os trabalhos da noite. Em seguida, apagou as luzes deixando o ambiente iluminado por uma pequena lâmpada vermelha. O China, sentado ao meu lado, cutucou-me com o cotovelo para em seguida sussurrar:

— Já frequentamos muitos puteiros de luz vermelha, nénão, Lameleque?

Implorei ao Véio por silêncio e concentração, como quem ralha com uma criança. Como resposta, recebi um sorriso debochado.

Permanecemos alguns minutos em silêncio até que a câmara reservada começou a emitir sinais de algum movimento. Em seguida, a cortina moveu-se e de lá surgiu uma entidade feminina envolta em um material semelhante à gaze. Apenas seu rosto era visível por detrás daqueles panos que envolviam um corpo escultural. Um rosto lindamente esculpido. Olhei o China e percebi riso de velho safado subindo por entre as bochechas.

Norma postou-se ao lado do Véio que se virou para admirar a figura do outro mundo materializada. Foi então que Norma falou.

— Henry Chinaski, trago novas da outra dimensão para ti. Esta vida no planeta é uma gota d’água dentro do oceano da eternidade. A verdadeira vida é a de cá. A de vocês, encarnados, apenas uma aprendizagem na experiência da carne. E você não tem aprendido muito, Henry Chinaski. Lameque também não, mas ao menos anda se esforçando, a despeito das escorregadas. Deixemos porém o cara de limão para outra oportunidade, pois o objetivo da minha vinda hoje é você.

— Mas a gente já se conhece, Normita? — Perguntou o Véio.

— Sim, Chinaski. Fomos prostitutas sagradas em templo romano 500 anos antes da vinda do Cristo.

— Talsquepariu! Puta, eu? Difudê isso…

— Sim, Chinaski e das mais devassas. Por isso você reencarnou como homem para que não usasse das facilidades que um corpo feminino possibilita e não levasse homens à loucura como fez anteriormente. Porém, notamos que o tiro saiu pela culatra. Sua libertinagem escrevendo, falando e, sobretudo, relacionando-se com seres do sexo oposto é a prova.

— E cumpade Lameleque? Foi puta também?

— Torno a dizer que Lameque não é objetivo da nossa reunião, mas ele já sabe do seu passado como autor famoso que usou mal seus talentos literários. Por isso voltou como o escritor fracassado e medíocre que todos conhecem.

O Véio soltou uma gargalhada e novamente me cutucou. Os outros membros da sessão permaneciam concentrados. Norma prosseguiu.

— Dada as circunstâncias, Henry Chinaski, viemos lhe propor uma troca: ou você toma jeito ou terá que reencarnar como uma hermafrodita na próxima vida para não usar dos atributos do sexo como instrumento de atraso em sua jornada rumo à evolução.

— Sifudê, Normita! Não quero ser hermafrodita! O que devo fazer?

— Largar a bebida, a luxúria e os escritos libidinosos.

— Prefiro o hermafroditismo então. Será uma nova e interessante experiência. Já pensou, Lameleque? Comer a mim mesmo?

Norma pareceu decepcionada.

— Bom, quem avisa amiga é…

Em seguida, a entidade rumou em direção ao reservado onde Dalva se encontrava. Quando o Véio pôs os olhos na imensa bunda da entidade materializada, perdeu o controle e, levantando-se, passou a mão no traseiro redondo de Norma, enquanto gritava seguidas vezes: “Rabão, hein! Rabão!”

Em contato com a mão do China, Norma começou um imediato desmaterializar, derretendo diante de nossas vistas feito um sorvete ao sol. Instalou-se verdadeiro pandemônio na sessão. Os participantes, furiosos, censuravam em altos brados o Véio. Temendo um possível linchamento, procurei uma saída.

— Gente, esquecemos Dona Dalva!

Os membros da reunião largaram o China e correram apavorados em direção à cabine. Puxaram a cortina e encontraram a cover do Jabba desmaiada. Aproveitei o descuido e tomei o braço do Véio, fugindo ambos do centro espírita.

Dentro do carro, de volta para a pensão, não pude deixar de expressar a minha revolta:

— Seu fedaputa! Tu podia ter matado Dona Dalva!

— Por que, Lameleque?

— Era ela que estava doando o ectoplasma para a materialização da Norma. Quando você passou a mão na bunda do espírito abalou todas as estruturas vitais da médium.

— Numa boa, cumpade. Cê acredita mesmo nesse negócio? Me pareceu enganação. Para mim, era a Dalva disfarçada, com efeitos especiais, é claro. O rabo pelo menos parecia do mesmo tamanho.

— Sifudê, Véio!

Continuamos boa parte do trajeto em silêncio. China tratou de quebrá-lo.

— Engraçado, Lameleque, o corpo da Normita parecia ser feito de algodão.

— É que é muito difícil, tanto para o médium quanto para o espírito, o processo de materialização. Por isso a textura do corpo não é exatamente igual ao dos encarnados.  Como também é muito difícil formar o corpo, eles preferem dar atenção à face, envolvendo-se em ectoplasma condensado semelhante à gaze. Daí vêm as histórias de fantasmas envoltos em panos ou lençóis.

Captei um riso abafado. Na certa pensei que o China debochava das minhas crenças. Nasceu em mim uma vontade de parar o carro para esbofeteá-lo. Foi quando ele mais uma vez surpreendeu:

— Qual será o gosto de ectoplasma, cumpade?

— Gosto? Como assim?

Em resposta, o China tirou a mão direita do bolso do paletó. A freada foi brusca. Xingamentos e buzinas ecoaram por toda a avenida. Espantado, vislumbrei a mão do China lambuzada por um elemento branco, viscoso. Tratava-se de uma pequena quantidade de ectoplasma que ficara em sua mão após a bolinada na Norma. Véio cheirou e depois provou a substância. Passeou a língua pelos lábios, fez cara de degustador profissional e decretou:

— Talsquepariu, cumpadi Lameleque! Tem gosto de purê de batata! — reclamou antes de abrir a janela do carro e cuspir.

 

 

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Sobre Zulmar Lopes

Fingidor de escritor, escreve por insistência e publica por irresponsabilidade. Roteirista do curta de animação infantil Chapeuzinho Adolescente, publicou em 2011 o livro de contos O Cheiro da Carne Queimada. Tem premiações em diversos concursos literários, a maioria de importância duvidosa. Por obra e graça do Espírito Santo e de um site da auto-publicação, lançou o livro de crônicas Pastel de Vento. Publicou também pelo infame pseudônimo uma coletânea intitulada Aqui Jaz Lameque.

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