8 Comentários

SOBRAS…

The-Deluge-1920

“E veio o dilúvio sobre a Terra…
E as águas cresceram e
inundaram tudo com violência,
e cobriram tudo na superfície da terra.” Gên.7.1718

 

No céu os últimos clarões do dia…

Apesar das chuvas que castigaram toda região, transformando estradas em trilhas esburacadas, desbarrancando encostas que arrastavam com elas os barracos com tudo que tinham dentro, inclusive seus moradores, o sol, que reaparecera radiante após a catástrofe, incentivava nos sobreviventes a disposição para o difícil recomeço.

Havia lodo, lixo e ratos rodeando as muitas pessoas que estavam à cata de seus poucos pertences, de seus entulhos, de seus mortos…

Uma galinha que, milagrosamente, escapara das águas não escapara da fome dos infelizes, repentinamente roubados de seus poucos sonhos.

Ele também estava ali. Vagando… Emudecido diante da dor que viera tão forte e com tanta água que lhe secara as lágrimas.

Abaixava-se de quando em quando, cutucando com uma vareta alguma saliência no barro. Pescou um braço de boneca, um carrinho sem rodas, uma bola murcha, uma fivela dourada de prender cabelos, um pé de sandália havaiana, com as tiras soltas.

Um a um, colocava os objetos dentro de uma sacola de plástico. Andou mais um pouco e recolheu um botão do fogão, uma camisa da seleção brasileira, rasgada e coberta de lama, a caixa de um CD do Roberto Carlos…

Acocorou-se e olhou para o céu. A noite caíra completamente. Uma lua cheia, brilhante e glamurosa, indiferente à tragédia, brilhava rodeada de estrelas.

Nem mais uma nuvem embaçava sua visão. As luzes da cidade, lá embaixo, competiam com as celestes.

Alguém ofereceu-lhe um prato de canja. Recusou. Lembrou-se da galinha: primeiro empoleirada sobre a mureta que resistira à chuva e depois estrebuchando nas mãos afoitas da vizinhança.

Abriu a sacola e continuou a inventariar o que lhe sobrara: a caixa do CD, sem a canção de amor; o botão do fogão que comprara com o dinheiro do Fundo de Garantia do último emprego; a camisa com a qual comemorou o penta campeonato da Seleção Brasileira; a sandália que lhe saíra dos pés, enquanto tentava escapar dos escombros, a fivela dourada que sua mulher nunca mais usaria e os arremedos de brinquedos com os quais os filhos jamais brincariam…

Imagem: The Deluge, óleo sobre tela, 1920, por Winifred Knights
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Sobre Henriette Effenberger

Brasileira, escritora, residente em Bragança Paulista-SP

8 comentários em “SOBRAS…

  1. Muito atual. Tristemente belo. Dá uma dor no peito!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sobras, perdas definitivas: pungente e sensível registro, Henriette!

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  3. Com Henriette Effenberger é a Bela que se faz Fera. Usando as palavras para dilacerar sensibilidades, provocando a reflexão do que somos. Principalmente, da pobreza com que somos feitos. Parabéns, Henriette Effenberger!

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  4. Triste belo. O lirismo na dor.

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