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O Último Dia da Miserável Vida de Afrânio

Afinal, por que eles me perseguem? Escondido, mal sei onde, enquanto aquela dupla desgraçada está lá, à minha espera, com o único objetivo de eliminar-me, varrer minha já tão insignificante vida da face da Terra. Se ao menos houvesse um motivo… Que mal fiz a eles, meu Deus? Existir! Este foi o meu mal! Haver nascido! Falta-me outra explicação. Penso, logo existo. Existo, logo, sou morto. E ainda há esta fome me corroendo o estômago que, contudo, ao menos dá para enganar. Fome eu passei a vida inteira, mas, e a sede? Esta, eu não tenho como controlar. A garganta arde como se nela alguém houvesse cravado um ferro incandescente. Dizem que no inferno o fogo é eterno a sede atormentadora talvez seja um prelúdio do que me espera. Devo estar enlouquecendo. Melhor dormir um pouco e esperar a noite para que a escuridão seja cúmplice da minha tentativa de fuga…

Anoiteceu. Meus olhos pouco a pouco se acostumam à negritude com que a noite banhou o ambiente. Dores judiam o corpo, a sede aperta e o silêncio denuncia que meus perseguidores desistiram. Vou tentar uma fuga. Guiando-me pelo instinto, corro em direção à luz do corredor que significa minha liberdade, mas sou traído pelo cheiro de comida. A fome é mais forte e retorno em direção aos odores. Mal percebo o impacto quebrando o pescoço. Uma dor desesperadora me assalta. Sinto a garganta banhada de sangue. Uma ponta penetrante, diabolicamente mortal, atravessou debaixo para cima o queixo, dilacerando língua e dentes. Iludido, ainda penso estar lutando desesperadamente para livrar-me, enquanto o corpo balança chicoteando o ar sem que eu possa dominá-lo. Em segundos, entendo serem tão somente espasmos involuntários. A coluna cervical deve se encontrar esmigalhada. No momento, sou apenas uma consciência à espera do iminente fim. Quando o dia raiar e aqueles dois abrirem a porta, certamente vibrarão com a minha morte. Laurel e Hardy, assim eu os apelidei, terão repulsa deste corpo imundo, das nojeiras que hospedo e de mim se livrarão sem perda de tempo, assim mesmo, preso a este engenho mortal, minha última morada. O gordinho, debochado, possivelmente ainda exclamará: “Perdeu, Mané!” Perdi sim. E pensar que de manhã o magricelo me batizou de Afrânio quando, inadvertidamente, invadi o escritório. Primeiro e único nome em toda a minha miserável vida. Tratava-se apenas de um paliativo para disfarçar o asco. Que ingenuidade a sua, nauseabundo rato de esgoto que caiu na ratoeira…

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Sobre Zulmar Lopes

Fingidor de escritor, escreve por insistência e publica por irresponsabilidade. Roteirista do curta de animação infantil Chapeuzinho Adolescente, publicou em 2011 o livro de contos O Cheiro da Carne Queimada. Tem premiações em diversos concursos literários, a maioria de importância duvidosa. Por obra e graça do Espírito Santo e de um site da auto-publicação, lançou o livro de crônicas Pastel de Vento. Publicou também pelo infame pseudônimo uma coletânea intitulada Aqui Jaz Lameque.

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