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nasyan

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Anoitecia quando a porta da sala abriu com um som que parecia um misto de vento e trovoada. A névoa parecia ser um bônus dado àquela misancene pelo clima local, deixando entrar uma amiga querida e muitíssimo irritada.

– Por quê? Pode me dizer por quê? Você perdeu seu timing? Recebeu a maldita mensagem que te enviei e não disse nada até hoje, até agora? Sabe que horas são? Tem alguma ideia de que dia é hoje?

Não respondi. Não fazia mesmo a menor ideia da hora, sabia apenas que era o momento de decidir coisas importantes, de agradecer, de proteger, e que era hora de entender que talvez os meus sonhos estivessem acabados. Talvez Sibila tivesse que morrer e Isadora precisava ser salva e protegida. Luna precisava disso também.

– Éramos tão perfeitas juntas, Isadora e eu, antes dos sonhos virarem pesadelos. Agora não conseguimos ser porto seguro nem para nossa filha quanto mais para alguém tão impulsivo quanto você, Sibila.

Eu queria conversar sem usar de olhares desviados, respostas genéricas e desculpas furadas. Pediram minha ajuda para fazer o que era preciso e agora precisava contar à minha amiga que ela e Luna iriam desaparecer e ter suas memórias apagadas. Exiladas de tudo que conheciam. Parecia um castigo, mas não era. E tinha de contar para Sibila que não havia traço de Isadora em nenhum lugar do universo conhecido, e que agora eu me convencera que ela deve ter sido morta logo que foi raptada. Minha Isadora, morta! Logo ela! Isadora, a senhora do conhecimento de séculos, a guardiã das memórias perdidas da deusa colérica que estava diante de mim.

– Entregue-me Luna e deixe-me levá-la para uma casa segura. Sei que Isadora gostaria que eu ficasse com nossa filha nesse momento complicado e difícil.

Ela me encarou por um momento em que pensei que me mataria. Creio que ela pensou nisso também, mas depois esmurrou meu peito até cansar, então enterrou-se em mim num abraço infinito.

– Ela não está morta! Não acredite nisso, eu não acredito. Vou encontrá-la e rápido!

Sabia que tinha razão, mas agora tudo que queria era que meu amor sumisse e a deixasse, meu demônio, livre para matar ou ser morta! Lutar era seu vício e estava em síndrome de abstinência. Sibila esperava, parada no meio de um abraço natimorto.

Meu silêncio a exasperou, ela saiu dos meus braços, tropeçou na mesinha de centro. Praguejando coisas em árabe voltou-me as costas. Da janela via a direção de seus pensamentos.

– Tem certeza que é isso que quer, irmã?

– Sim. Apague as lembranças das duas quando eu a encontrar, crie novas e leve-as para longe de mim. Só preciso ver a Luna uma vez antes de ir atrás do cretino que aprisionou Isadora.

– Você pode contar comigo, basta pedir.

– Sei disso, mas não quero colocar mais ninguém em risco.

Um abraço selou nosso acordo. Ela invocou a passagem que iria nos levar até a casa onde Luna vivia. Apenas ela saberia quem fomos e para onde iríamos, pois minhas memórias sobre isso também seriam apagadas. Vi as memórias de minha filha serem apagadas diante de uma Sibila estática e irada. Seus olhos estavam vermelhos e chispavam quando sentou-se diante de mim. Beijei sua boca e me deixei apagar e reprogramar até que sobrasse muito pouco de nossa amizade em minha mente, um fiapo de sonho.

Dali em diante seria a mãe de Luna e professora. Fechei os olhos até que acordei na minha nova vida.

Longe dali eu vi Isadora, uma visão frágil e irreal. Ela avançava em direção a um lugar que pensava ser seu lar. Instintivamente apertava o medalhão que trazia escondido sob a blusa. Os cabelos estavam avermelhados pelas longas horas passadas sob o sol. Caíam em cachos espiralados sobre seus ombros nus. O medalhão era meu e se ela lembrasse o feitiço veria meu rosto sorridente e o de Luna, mas ela não era mais uma bruxa, Sibila tirara isso dela, junto com as lembranças compartilhadas. Pude sentir isso. Parou um instante, a cabeça encostada à janela do ônibus, e sem pensar no que fazia eu a fiz sentir minha presença e ela me procurou. O olhar fixado na direção que ele havia escolhido como sua, vasculhou os ventos em busca de um sinal de sua presença, mas nada encontrou. Sibila sabia esconder muito bem o que não queria que fosse encontrado.

A busca era inútil. Eu desisti e chorei por ter recebido esse fiapo de esperança. Isadora estava viva e sem memória vagava no mundo dos mortais.

Sibila aparecia em meus sonhos, caçando Eram sonhos de morte e dor intermináveis. Sem nosso amor, ela era apenas ódio sem porto, sem memória, sem propósito.

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Sobre Rosa Cardoso

Pseudo-poeta! Batizei-me assim quando ,depois de ler Bandeira , atrevida e teimosa cometi uns versos. Li e os achei esquisitos e parecidos comigo. Adotei-os. Os contos vieram depois e nasciam meio mortos. Os leitores reclamavam : Onde está o final? Sofria buscando dar um final aos natimortos. Isso foi antes. Passado, pretérito mais que perfeitinho, agora quero sinceramente que os finais se danem. Não gostou? Inventa um. Se for legal me mostra.

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