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Galinhada

Le_cheval_de_cirqueNo fogão de campanha, um grande caldeirão ferve litros de água.

O fogo alto é alimentado por uma mistura de gravetos, carvão e poucas toras de lenha verde, que esfumaçam a noite fria, sem estrelas.

Penduradas, de cabeça para baixo, duas galinhas destroncadas ainda estrebucham, embora seus olhos já estejam embaçados pela morte.

Do prego ao caldeirão fervente, basta um passo.

O mestre-cuca não usa toque, apenas um lenço, amarrado à moda dos piratas, que tenta segurar os fios revoltados, teimosos por encontrar um espacinho e cair sobre os olhos do cozinheiro, que os afasta com os mesmos dedos que apertaram o pescoço dos frangos há poucos minutos.

Há também, na cozinha improvisada, uma bacia de arroz, cebolas a serem descascadas, duas cabeças de alho, alguns tomates e um maço de ervas colhidas ao acaso, além de uma grande faca pontiaguda.

As pequenas luzes que circundam o espelho denunciam as primeiras rugas mais profundas, ao redor dos olhos, e que a atriz se esforça em esconder sob uma grossa camada de maquiagem.

Atribui à fumaça que vem da cozinha a vermelhidão de seus olhos, que ressalta ainda mais o verde claro das íris. Esquece-se das noites insones e do baseado cotidiano.

Levanta a alça do soutien, com a expectativa de que levante também os seios e os torne mais atrativos.

No colo espalha o creme hidratante, assim como nos braços e nos ombros.

Lamenta não ter alguém para espalhar o creme também nas costas, até se lembrar de que estarão cobertas pela musseline transparente e colada ao corpo e que, de longe, passará a impressão de nudez.

Sente-se tentada a não usar nenhuma roupa íntima por baixo da musseline, nem calcinha, muito menos o soutien que a aperta e que revelam as gordurinhas extras.

Que diria o público quando as luzes coloridas a atingissem e pudesse vê-la inteira através do tecido?

Corou. Encalorou-se. Despiu-se. Abandonou o espelho da penteadeira e olhou-se de corpo inteiro.

* * *

O ruído do amolar da faca na pedra, que também serve de apoio à bacia usada como pia, indica que os trabalhos na cozinha estão, literalmente, a pleno vapor.

Vapor que também se condensa na testa do cozinheiro e sobe, na forma de fumaça, até o camarim da diva decadente e se desfaz contra o teto baixo da lona desbotada, que, tal como a mulher, já viveu dias de glória.

Os frangos agora já estão boiando no caldeirão. A fumaça com cheiro de penas e de morte penetra nos narizes, aguçando o apetite das feras: um leão magro e desdentado, uma onça parda, idosa e encardida, os quais, com seus urros, provocam o chimpanzé, cujos guinchos unem-se aos latidos dos poodles e aos relinchos dos dois cavalos brancos, os mesmos que à noite trotam no picadeiro com penachos coloridos e durante o dia servem de montaria ao dono do circo e ao seu imediato.

* * *

Sem parar de picar vigorosamente a cebola, as ervas, o tomate e amassar o alho com o cabo da faca, o cozinheiro coloca dois dedos na boca e solta um longo assobio.

É a senha para que os animais se calem e o anão chegue ofegante para começar a arrancar as penas das galinhas, depois que a água do caldeirão é dispensada em uma valeta, providencialmente formada pela forte chuva do dia anterior.

O anão cantarola o refrão: a galinha pintadinha e o galo carijó. A galinha usa saia, e o galo paletó, enquanto depena e brinca com a galinha morta, balançando o pescoço e fazendo com que os pés da ave dancem sobre a tábua…

Vez por outra, o cozinheiro lança ao anão um olhar reprovador, mas não diz palavra. Por sua vez, o anão finge que não percebe e continua a cantar, até que uma penugem entre em sua boca e provoque um acesso de tosse.

Com cara de “bem feito!”, o cozinheiro continua picando cebolas, mal se importando com o anão quase tão roxo quanto os pés da galinha.

* * *

Todas as luzes já se acenderam. A bilheteira com ar cansado confere a fila formada por meia dúzia de gatos pingados. Algumas crianças, malvestidas e de chinelos, circundam a lona, esperando o momento de distração dos “zeladores” para conseguirem passar por baixo dela.

O homem do realejo, assim como seu periquito, aguardam a ansiedade de alguma mocinha sonhadora.

O nada respeitável público acomoda-se nas arquibancadas, come pipoca, masca chicletes, enquanto as últimas caixas do mágico estão sendo colocadas no picadeiro.

* * *

Acendem-se as luzes do palco. A bandinha, composta por um trombone, dois trompetes e duas caixas, toca um dobrado, puxada pelos metais, enquanto homens enfastiados, vestidos como soldadinhos de chumbo, marcham ao redor do picadeiro, sendo seguidos pelo mágico e sua cartola, pelo domador e seus leões encoleirados, por Tarzan e seus micos e, por último, a adestradora e seus poodles, além, é claro, de dois palhaços tristes, com suas risadas pintadas nos rostos, que fingem não achar seus lugares na fila.

A plateia assiste ao desfile sem aplaudir nem sorrir. Não se manifesta nem mesmo quando a pomba escapa da casaca do mágico e voa em direção ao saquinho de pipoca da criança magra da primeira fila.

Não aplaude o domador e seus leões infelizes, nem o Tarzan que voa nos trapézios, como se fossem cipós, acompanhado pelos macacos de chapeuzinhos vermelhos e azuis.

Os poodles entram saltitando atrás de uma bola grande e colorida, e a adestradora, com um apito e alguns petiscos, os convence a saltar por bambolês tão gastos quanto a musseline da roupa que encobre seu corpo sem atrativos.

Há muito não ouve um “fiu-fiu” do público. Respirou aliviada por ter recobrado o senso crítico a tempo de vestir o colant cor da pele por baixo da roupa de trabalho.

* * *

Os pedaços de galinha já estão fritando no caldeirão, absorvendo os temperos e lentamente se bronzeando no fogo baixo.

Em uma lata ficaram as tripas e os pés, que irão para os cachorros.

As cabeças serão misturadas à carne destinadas aos leões, e as penas, depois de lavadas e deixadas ao sol de muitos dias, encherão travesseiros.

O cozinheiro agora joga no caldeirão o arroz que aguardava na bacia e, depois de uma mexida vigorosa com um cabo de vassoura que faz a vez de uma colher de pau, despeja o restante da água fervente sobre o arroz e o frango, extraindo dali o chiado da água sobre o óleo quente e mais uma nuvem de vapor temperado.

Pronto. Basta esperar a água secar e a função terminar.

Tira o lenço da cabeça e com ele seca o suor do rosto. Ajeita a tampa do caldeirão, para que fique apenas semiaberto, e senta-se, observando a fumaça com o ouvido atento aos movimentos do picadeiro.

O dono do circo, de fraque e cartola, anuncia que esta foi a última sessão na cidade, não arrancando um único “ah” do público.

Poodles voltam para suas gaiolas, leões para suas jaulas, assim como os micos, agora sem os chapeuzinhos.

O elenco se reúne ao redor da panela, novamente em fila, agora com os pratos nas mãos. Não há palhaços, não há mágicos, não há adestradores. Não há conversas sobre o espetáculo, não há risos nem sorrisos.

Há tristeza e cansaço. Há a frustração de quem viveu muito e não chegou a lugar nenhum.

Há um circo para ser desmontado e uma nova cidadezinha a ser visitada, mas primeiramente há uma galinhada a ser degustada com apetite.

E rápido.

Antes que alguém dê queixa do furto dos galináceos…

Imagem: Le cheval de cirque, guache e nanquim sobre papel, 1964, por Marc Chagall
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Sobre Henriette Effenberger

Brasileira, escritora, residente em Bragança Paulista-SP

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