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READOLESCER

 

espelho

Agora sei que não serei jamais inteira.

O tempo gasto nesse aprendizado
acena irrecuperável,
tantalizante.
Como não soube antes?
Como tê-lo sabido?

Na gangorra.
Não foi o bastante.

No carrossel, roda-gigante:
a visão dupla
— sobe-e-desce,
vai-e-vem —
substituída pelo corrupio alucinante.

Subitamente o puzzle se elucida,
os olhos se ajustam ao caleidoscópio nas retinas,
em cada estilhaço desse espelho mágico
reconheço a figura refletida:

olhos de aço,
olhos de gelo,
olhos de corça ferida,
olhos de mulher sem medos,
de criança introvertida,

sei todos os meus segredos,
afinal reaprendida.

Readolescer tranquila
no labirinto de espelhos,
no purgatório de Dante,
num ombro reconfortante:

pomba da paz,
loba mansa,
mina de sal,
sol poente,
sorvedouro,

— adolescente.

Agora sei que não serei jamais inteira:

facetada,
divisível,
cambiante,

já não cobro do pensamento
dos sentidos
coerência ou nexo:

mutante.

Como tê-lo sabido
antes?

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