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Minúscula

minuscule

Quando menina, vivia uma vida minúscula. Era essa a palavra exata para a falta de carinho, para a vida de semi-órfã. Minúscula definia quem era e como se sentia. Ela se escondia sob a pequenez como um roedor assustado, mas, apesar de seus esforços  em ser pequena e invisível, cresceu. Virou o que gostam de chamar de ‘mulherão’ antes mesmo dos treze anos. Fingia gostar dos tios e do primo para que eles dessem ao menos uma parte do espaço que consideravam seu e seguia com sua vidinha minúscula de restos e roupas remendadas, fazendo serviços domésticos de todo tipo. Ela quase não falava e sempre que podia escondia-se atrás de portas, vãos de escadas, embaixo das camas e, nessas tocas, distraía-se fazendo arabescos na pele delicada. Desenhos sangrentos que, agora, fazia com uma agulha desde que as unhas pararam de causar a dor de que precisava.

Com o tempo ficou tão minúscula que o tio, numa tarde morna de um inverno fajuto, decidiu que ela também lhe pertencia e dentro desse dia, num minuto, tudo ficou ainda mais minúsculo, pois nada ali merecia o uso de letras grandiosas, tudo era por demais pequeno e desimportante para algo além das letras e acontecimentos da palavra minúscula. Mandou que tirasse o velho vestido e viesse, andando na sua frente para onde dissesse que devia ir. E obedecia, agarrada às roupas que, amontoadas junto aos seios, pareciam frias. O tio mandou então que  fosse até o chuveiro e tomasse um banho. Ficou olhando, esperando e por fim tirou a própria roupa, entrou no chuveiro também e lavou os cabelos da menina com todo cuidado. Depois, deu atenção a cada pedaço do corpo. Ela ficou ali de olhos fechados até que  a considerou suficientemente limpa e mandou que se secasse. A sobrinha obedeceu e de novo ele olhou por um tempo até que foi secá-la. Depois mandou que se vestisse, ordenou que não contasse o ocorrido a ninguém e saiu do quarto, ordem que ela seguiu rapidamente. Correu pela casa e se embrenhou nos fundos do quintal, bem rente ao muro onde chorou baixinho e fez novos arabescos na pele com as unhas até que a dor a fizesse parar de chorar. Quando voltou para a casa viu o primo num canto e entendeu que o garoto viu parte de tudo aquilo. Suspirou e voltou aos seus afazeres miúdos de sua vidinha minúscula. Algumas horas se passaram e o tio voltou com uma sacola de farmácia e perguntou sobre a menstruação, queria saber quantos dias haviam passado desde o final da última. Respondeu que haviam se passado dois dias. O tio mandou que ela fosse para o quarto e esperasse lá. A menina obedeceu e logo que o homem chegou com uma seringa, ordenou que ela deitasse de bruços. Aplicou a injeção e fez um curativo. Beijou a bunda da menina e saiu sem falar mais nada. O resto da família chegou pouco depois e a jovem se ocupou do jantar, da louça, do chão da cozinha e por fim foi dormir. Acordou com o primo sentado na cama olhando intensamente seu corpo. O primo era um pouco mais novo, um menino imberbe de 12 anos que agora acariciava seu rosto. Beijou a prima na boca e ergueu a camisola para olhar os seios. Assustada, não fez nada. Ele acariciou e apalpou aqueles seios até cansar, indo depois embora em silêncio.

Passou-se um mês e então o tio passou a vir até Lizzy sempre que ficavam sozinhos. Ninguém via, melhor dizendo, quase ninguém. O primo viu mais de uma vez e também decidiu que ela era sua e a menina se perdeu nessas vontades miúdas. O tio a ensinou a fazer tudo que considerava prazeroso e adorava o modo como a sobrinha obedecia sem questionar ordens, como: ‘fique de quatro e abra bem a bunda’ ou ‘venha aqui e chupe meu pau sem desperdiçar nada, ouviu?’. Quando a menina deixava escapar uma gota que fosse apanhava de chicote. O tio estava muito satisfeito e queria testar seu controle sobre a pequena. Resolveu que ela iria agora para a escola e teria roupas novas. Depois de tudo providenciado deu a ela a ordem de não olhar para nenhum menino, pois, caso descobrisse, a mataria bem devagar e ninguém se importaria. A jovem obedeceu e descobriu modos de esquecer e fingir que também não via nada. Havia dias em que era medianamente feliz, medianamente talentosa, medianamente bonita e medianamente vazia. Encontrou o caminho do meio e desistiu de ser pequena e passou a pensar em fazer coisas escondidas. Pequenos roubos que logo aprendeu a guardar numa fresta na parede. Pesquisava rotas de fuga e ia crescendo. Tinha até inveja da felicidade média e burguesa das colegas. Estava nessa descoberta, nessa construção da paz interior numa nova vida longe dali financiada pelos  roubos. O primo também crescia e sempre que o pai não estava ele vinha em silêncio e beijava todo o corpo dela antes de conseguir a primeira penetração. Ela gostou. Gozaram juntos em meio à escuridão. O tio sempre a requisitava e sempre aplicava as injeções que, agora a ela sabia, impediam uma possível gravidez.  A tia e as primas fariam uma viagem nas férias de verão. Seriam quase três meses entregue ao tio. Sem pausa. O primo também viajaria com a mãe. Uma viagem para as crianças da família. Mas ela não era da família, era?  Viajariam para os Estados Unidos da América, estava tudo acertado — presente do tio, a menina soube depois. Uma surpresa para a família, mas ele não poderia ir, pois tinha que cuidar dos negócios, da política e das coisas da igreja. A menina previa férias agitadas para todos. Ninguém na cidade repararia nela ou se preocuparia em saber o que acontecia na casa do pastor. A população local era de pouco mais de 40.000 almas, era o que dizia o livreto dado aos turistas, mas a jovem sempre pensou que isso talvez fosse apenas delírio de algum recenseador otimista. Ou quem sabe entrassem na conta os cavalos, as moscas, os gatos e os bois. Ela mal abrira a boca desde que recebera a notícia. Os dias passaram e obedecendo às ordens tinha se juntado ao grupo que viera se despedir. Para se despedir, servia as mesas no jardim. Olhava para as pessoas ao seu lado, enquanto cogitava a ideia de que o recenseador deveria estar bêbado ao fazer a contagem, pois não havia ali mais do que 5 mil almas vivas. Ela não contava os mortos, embora os visse com mais frequência que aos vivos. Fantasmas sombrios pelos cantos da cidade, da casa, da igreja, e os ignorava como ignorava aos vivos. Sabia que ninguém a ajudaria, vivo ou morto. Assim que a festa terminou, ela colocou as malas no carro da agência de viagens que os levaria ao aeroporto. O tio beijou a esposa e os filhos e acenou de modo adequado, e Lizzy ficou apenas vendo o carro desaparecer na estradinha. O tio a fez voltar à realidade ordenando que limpasse o jardim. Uns poucos moradores observaram o seu trabalho. E depois lhe pareceu que estava só no mundo com seu tio, que sentado numa cadeira ali perto, também a observava. A menina meio que desmontou quando ele gritou seu nome, fingiu estar distraída arrumando algo, mas observava o lugar e depois de alguns segundos voltou-se para o tio.

Pensou vagamente em como manter aquele ser minúsculo com pensamentos grandiloquentes longe  da sua vida, mas ela estava, como sempre, sentindo-se impotente. O tio já estava se pondo em ação e a menina resolveu prestar atenção. Fez um gesto de assentimento e entrou na casa. Andava alguns passos adiante do tio, como sempre. Ele voltou ao jardim bem tratado que se estendia até ser barrada por um portão de ferro trabalhado. O tio não gosta da cidade, não gosta do casarão, não gosta das pessoas, não gosta da esposa, mas ama as árvores antigas e a menina que domina. Trancou o portão. Soltou os cães e por fim fechou a porta da casa, não sem antes ligar o alarme. Há muitos boatos sobre a casa, sobre o pastor e sobre a menina e, embora não existam informações declaradas sobre nada, a cidade imagina muito, embora faça pouco.

A menina se esgueira da janela e atravessa a sala de visitas sem fazer barulho para não acordar o tio que ressona numa poltrona e, passando por caminhos escuros, chega a uma escada íngreme onde é possível ver o porão, onde no passado foram aprisionados escravos e inimigos. Lá existe também  uma câmara secreta embaixo do antigo escritório do pai do pastor, onde ele escondia seu material  especial, artigos raros e caros que lhe renderiam um bom lucro e uma morte rápida. A entrada para tal câmara é imperceptível, escondida atrás de uma tapeçaria. É desse baú que a menina vai retirar muitos tesouros e continuar a vida em algum lugar. Um dos fantasmas sombrios tinha lhe mostrado o lugar e contado sobre os negócios escusos e rendosos do pai do pastor, e assim que descobriu tudo isso, com a ajuda do velho fantasma, passou a pensar em como fugir dali com o butim.  Nunca em seus 14 anos de vida pensou em ir estudar em alguma outra cidade, muito menos em outro país, mas o fantasma  tinha outras ideias. E como prever o futuro não fazia parte dos dons que herdara da mãe, a menina só foi avisada da viagem da tia e dos primos quando não havia mais tempo para fugas ou reclamações. Fechou tudo e quando voltou o tio a esperava. Estava nu. Havia uma coleira sobre a mesa e lingerie sobre o sofá. Ele rasgou o vestido da menina e depois mandou que vestisse a lingerie, ajudando-a com a cinta liga e as meias. Aprovou o resultado e mandou que  viesse até o sofá. Ajustou a coleira de couro macio e prendeu nela uma corrente. O velho fantasma acenou tristonho e desapareceu quando o tio a fez subir as escadas adiante dele, enquanto segurava a corrente e se divertia em fazer com que a jovem tropeçasse. A corrente era mais longa do que ela tinha percebido e foi presa a outra que parecia ser chumbada ao teto. Logo percebeu que poderia circular pelo quarto do tio, ir ao banheiro se quisesse, mas não poderia fugir quando ele não estivesse em casa.

Naquele dia ele fez o que sempre fazia. Fodeu a menina de todas as formas, mas desta vez deu  um comprimido que a fez dormir quase que imediatamente.

Acordou na cama do tio coberta por um edredom, O ar-condicionado ligado na temperatura de uma  noite fria e ventosa. Na mesinha havia comida e água. Sentia-se zonza por causa do remédio  e seguiu meio tonta para o banheiro. A coleira machucava seu pescoço e assim ela se lembrou da corrente. Tomou um longo banho quente, coisa que normalmente não fazia, e procurou algo para vestir. Não encontrou nada além de outro conjunto de lingerie e um bilhete que ordenava que permanecesse vestida assim. Seu tio voltaria logo. Tinha tarefas na igreja e no escritório. A menina, naquele momento, tentava entender porque estava recebendo aquele castigo, mas por mais que se esforçasse em criar uma lista das muitas faltas que havia cometido contra a lei do tio, não encontrava explicação. E como não queria piorar sua precária situação vestiu a lingerie, comeu a comida e bebeu a água. Logo começou a sentir-se tonta de novo. Via borboletas e outras coisas pelo quarto quando resolveu se deitar enrolando-se no cobertor, pensando em como seria bom estar longe de tudo isso, sentada no sofá do seu próprio apartamento quentinho, vestindo camiseta e bermuda, ouvindo as estórias do pai, o riso da mãe e vivendo sua outra vida. Mal dava pra acreditar que essa era a sua vida apenas dois anos atrás. Em algum lugar na cidade o sermão acabou, o tio saiu, e, lançando um olhar que dizia muitas coisas, o pastor despediu-se do rebanho, que saiu com as orelhas ardendo depois de tantas reprimendas e conselhos sobre viver de maneira santa.

A menina acordou quando o tio puxou seu cobertor e elogiou sua beleza e obediência. Já nu, o seu pau duro logo a penetrou santamente. A luz que as janelas mal filtravam a atingia em cheio, enquanto ela continha um bocejo e apertava os olhos. A noite havia sido longa e  quase não havia dormido, pois o tio a havia mantido acordada até bem tarde. Percebeu que a coleira não estava no pescoço e que a porta se encontrava aberta. Sobre a cadeira havia uma roupa estranha. Vestiu o vestido que mal lhe cobria e saiu do quarto. Na sala o tio a esperava e disse que iriam sair. Colocou nela a coleira e uma corrente menor que a mantinha perto de si. Entraram no carro e seguiram pela estrada por muito tempo. Tanto que anoitecia quando chegaram a uma casa no meio do nada, onde havia uma festa. Havia outras meninas e mulheres ali, com quem ela trocava olhares rápidos e assustados. Reparou que no local havia uma espécie de passarela cercada de cadeiras e iluminada por holofotes. Pensou nos desfiles de moda e nos leilões de escravos das aulas de história. Todas as mulheres foram colocadas juntas sobre a passarela e sob os holofotes. A menina concluiu que estava num leilão. Uma mulher rasgou os vestidos de cada uma das que estava sobre a passarela e pendurou placas com números em suas coleiras. Lances foram dados e logo  estava sendo puxada pela corrente por seu tio, que sorria. Deixou-a numa cama, onde prendeu a corrente a outra presa à cama. Olhou e disse para fazer o que mandassem ou seria severamente machucada. Colocou uma pastilha em sua língua, deu-lhe mais comprimidos e água. Depois sumiu. Ela lembra apenas de retalhos daquela noite. Sexo e também de alguns homens que apenas a olharam. Um deles bateu tanto nela que a jovem apagou. Acordou no quarto do tio, acorrentada, confusa e nua. Ele apareceu ao anoitecer e explicou mansamente que sua família voltaria na semana seguinte e que se  a sobrinha sequer pensasse em falar algo ou tentasse fugir, ele a venderia definitivamente para aquele lugar. Ela prometeu que faria tudo que seu algoz mandasse desde que não voltasse à casa de leilões. O próprio tio tratou dos ferimentos da menina e removeu as correntes. Dava sempre o remédio para que ela dormisse quando tinha de sair, e quando a família voltou, ela não via mais fantasmas, não sonhava com os pais. Servia a família, ia à escola, deixava que o primo a comesse, e quando não havia ninguém mais ou quando ele ordenava que ela fosse encontrá-lo em outra cidade, ela era do tio. Até que um dia, aos dezoito anos, pulou na frente de um caminhão e sua vida minúscula terminou. O tio fez um belo sermão, lamentou o acidente e foi consolado por todos, elogiado por ter acolhido e cuidado tão bem da órfã.

Imagem: óleo sobre tela, de Roberto Liang
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Sobre Rosa Cardoso

Pseudo-poeta! Batizei-me assim quando ,depois de ler Bandeira , atrevida e teimosa cometi uns versos. Li e os achei esquisitos e parecidos comigo. Adotei-os. Os contos vieram depois e nasciam meio mortos. Os leitores reclamavam : Onde está o final? Sofria buscando dar um final aos natimortos. Isso foi antes. Passado, pretérito mais que perfeitinho, agora quero sinceramente que os finais se danem. Não gostou? Inventa um. Se for legal me mostra.

2 comentários em “Minúscula

  1. Adorei! Não consegui parar de ler!!!! Um conto triste e real.

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  2. Triste! Mas com as tuas qualidades Rosa. O Final brusco me abalou. Gosto mais das criaturas que lutam, que no chão em que enterraram uma esperança fazem brotar outra. Há sempre uma saída, a meu ver, mesmo que seja nos porões da nossa mente. Sempre li, na ficção, que nas violações físicas, a mente busca refúgio, algumas vezes na fantasia, outras vezes no esquecimento. Pq suas “heróinas ” sempre perdem?

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