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NUM PONTO DE ÔNIBUS

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Eu poderia dizer apenas isso: o rapaz estava no ponto do ônibus. Usava um terno cinza e um guarda-chuva cinza. O mendigo parou de passar para nos dizer como um profeta manso: que não choveria aquele dia, que nunca mais choveria, porque naquele momento não chovia e o tempo, o tempo, meus senhores, estava irremediavelmente parado (aliás, acho que ele disse: encrencado).

Esses foram os fatos visíveis. Os outros fatos é que me incomodam. Vou completar a estória: o mendigo puxava um cachorro com o pensamento (confesso que vi como o fazia e me traio, me traio). O cachorro era muito mais bonito, o cachorro era como um nobre russo que viajasse incógnito, o cachorro estava sujo e provavelmente doente.  E o mendigo puxava o cachorro com amor.

Por quê, meu Deus, tenho que falar nisso? Um cachorro é tão irrelevante. Esse não era. Ou eu é que o vi com os olhos do mendigo. Que não devia ter parado de passar naquele instante. Porque então o cachorro viu o rapaz do guarda-chuva. É importante lembrar que o guarda-chuva era cinza, já que isso prova que o rapaz não existia.

Eu acho que não existia: olhava o mundo com tanta confiança que não podia ser.

O cachorro viu o rapaz e pensou: eis um amado. Era. Tão amado que não se importava. No ponto do ônibus as pessoas com calor e vontade de ir para casa esperavam que o mendigo dissesse outras coisas sobre o tempo. Uma criança estendeu a mão para o cachorro. Foi então que o tempo realmente parou, tudo se interrompeu no meio. No meio de eu piscar e respirar, a criança e a mão estendida receando tocar, o cachorro tenso com a descoberta de um amado, o mendigo à espera de que o cachorro andasse outra vez, o rapaz não percebia nada.

Vem, pensou o mendigo com amor. O cachorro não se moveu. Vamos, pensou o mendigo. O cachorro fascinado. Ele não quer você, vi o mendigo pensar.

Então o cachorro disse: ninguém escolhe um cachorro. Se eu andar atrás dele, ele é meu dono. Ainda que não perceba será meu dono. Ainda que me queira enxotar com seu guarda-chuva cinza, eu insistirei e ele será meu dono. Mas você, meu amor, você tem dono, pensou o mendigo com lágrimas na voz.

Num sobressalto o cachorro olhou para o mendigo, surpreso ao perceber com que intensidade era também um amado. Decidiu-se.

(Eu assistia, meu Deus, uma intrusa, que fazia eu em meio a tanto amor, em meio a uma piscadela e uma expiração?) O mendigo deu passo, blefando, fingindo que ia. Mas o cachorro tinha se decidido e foi também, um olhar de vaga saudade para o que não existia.

O tempo se moveu de novo, eu exausta de sentir o amor alheio.

Foi bom que o cachorro não ficasse, porque logo o ônibus chegou, e num ônibus nenhum cachorro pode seguir o dono.

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Um comentário em “NUM PONTO DE ÔNIBUS

  1. Um conto magnético, prendeu-me pelos olhos do início ao fim ,cheio de sensibilidade e poesia!

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