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RETORNO

Eu preferia não ter voltado. Tudo era tão diferente, vinte anos atrás.

Há vinte anos, quando deixei a Terra, ainda havia traços da antiga natureza vigorosa. Mas a Poeira já tinha bem adiantado o seu trabalho de destruição.

Tenho, é claro, saudade de mim. Da jovem biogeneticista certa de que podia salvar o planeta. Pretensiosa e cheia de entusiasmo. Parece que faz tanto tempo. Muito, muito mais que vinte anos.

Mas para alguma coisa serviu todo aquele elã. Com a minha campanha pela Salvação, coordenando o SOS Século 21, consegui ficar em evidência — o suficiente para estar entre os 666 Escolhidos.

Claro que todos os habitantes da Terra pensavam que seriam levados para as estações orbitais a tempo. Se não fosse assim, a revolta teria sido incontrolável. Viam as milhares de naves sendo construídas em todos os Quadrantes e pensavam que haveria lugar para todos, antes que o Apocalipse chegasse. Mas nós, os Escolhidos, sabíamos: somente uma das naves realmente partiria, porque somente uma das naves era real. As outras eram meras carcaças, erguidas nos campos de pesquisa espacial para tranquilizar os Ficantes.

Quando nossa nave partiu, por algum tempo ainda mantivemos contatos clandestinos com a Terra. Clandestinos, porque proibidos pelo Alto Comando. Mas quem conseguiu contrabandear receptores de pulso para a nave pôde acompanhar o desespero das multidões quando se descobriram traídas, apedrejando inutilmente as estruturas das falsas naves e preferindo muitas vezes o suicídio à morte lenta pela Poeira.

Na estação orbital em que me instalei, fiz meu trabalho. Cumpri minha parte, como dizem. Consegui a ‘vacina’ que imunizaria seres vivos contra os efeitos da radiação. Uma vez ‘vacinados’, protegidos contra as alterações genéticas provocadas pela Poeira, poderíamos voltar para a Terra — ainda que só em visita.

Esses vinte anos me tornaram respeitada o suficiente para poder pleitear — exigir — estar na primeira missão de retorno à Terra.

Eu tinha um motivo muito especial para voltar.

No nosso esforço por reproduzir o ambiente nativo, tínhamos sido bem sucedidos em quase tudo. Conseguíramos grama, arbustos, árvores. Legumes e grãos. As sementes que trouxéramos da Terra se clonavam com perfeição e tudo podia ser obtido.

Tudo, menos flores.

Rosas, jasmins e orquídeas. Tulipas e junquilhos. Margaridas, cravos, dálias. Camélias e malmequeres.

Obtínhamos flores que davam frutos — flor de maracujá, flor de laranjeira. Mas as inúteis — aquelas que são apenas lindas ou só perfumam —, essas não conseguíamos. Parecia que a biologia dentro da nossa Estação era conscienciosamente utilitária, funcionava de modo a privilegiar o que era útil à nossa sobrevivência e se recusava a admitir o que era apenas agradável aos sentidos.

Com o passar do tempo, ver uma flor se transformou no meu objetivo máximo.

Ah, eu via flores. De todas as cores, texturas e perfumes. Acordava sentindo nas pontas dos dedos aquele toque aveludado de pétalas e não ousava abrir os olhos, tentando segurar dentro das pálpebras a imagem colorida que durante o dia, por mais que me esforçasse, não conseguia recuperar através da memória. Inspirava profundamente, tentando recuperar a lembrança do cheiro de flor.

Era o cheiro que eu queria, não o perfume.

—x—

A primeira missão de re-Conhecimento visava simplesmente registrar os estragos.

Para nosso espanto, ainda havia bandos de humanos percorrendo a superfície desertificada do planeta, mudos ou uivantes, fugindo à nossa aproximação – ou grunhindo pedidos de comida ao perceber que nós, os deuses vindos do céu, não éramos cruéis.

Humanos e cachorros andavam juntos nesses bandos, latindo uns para os outros e parecendo se entender perfeitamente. Viviam do que? De raízes e ratos, contaminados todos, determinando aquelas figuras imprevisíveis, sem cabelos, ou com muitos mamilos, ou línguas bífidas, ou dedos estranhos. Ou tudo junto.

Estranhos para nós. Do ponto de vista deles, nós é que éramos estranhos: todos iguais.

Eu não contara a ninguém o motivo da minha urgência em voltar. Ninguém conhecia meus sonhos secretos. Minha obsessão pelo estudo das flores era tomada como coisa estritamente científica.

Achei que, para concretizar meu objetivo, os homens dessas tribos de terrestres — rudes, acostumados a cavar a terra — seriam aliados melhores que meus companheiros de viagem. Reuni um grupo que me seguiu sem dúvidas. Cumpririam a missão indicada por mim através de gestos. Fariam com prazer dedicado tudo que a Deusa lhes pedisse.

Levei-os, através do calor esperado mas difícil de suportar, através do chão cinzento e ressecado, até aquele ponto bem gravado na minha memória. Junto ao sopé do pico do Jaraguá – eu não poderia me esquecer. Sonhava com isso todas as noites.

Eles cavaram. Com as unhas duras habituadas a remover terra e com duas pás que eu trouxera. As pás os encantavam.

A um metro e meio de profundidade, dentro de uma caixa de chumbo, preparada para sobreviver por muitos anos, estava a minha flor.

Vinte anos antes, os preparativos tinham tomado muito tempo de dedicação de uma equipe do SOS Século XXI. Nada fora esquecido. Coletores de luz solar, colocados sobre o morro em quantidade suficiente para prever futuras possíveis quebras, levavam a energia para baixo da terra, para dentro da minha caixa de chumbo: lá a energia se transformava, fornecendo a luz, o calor e bombeando a quantidade de água necessária para manter as condições de sobrevivência e de reprodução. Um sistema fechado, em que a água se reciclava constantemente e os sais eram repostos à medida que as plantas os consumiam, sem permitir a entrada de matéria contaminada.

Quando três homens me trouxeram do fundo da terra a caixa de chumbo, felizes por ver minha alegria, respirei fundo tentando controlar o tremor das mãos. Abri a caixa e retirei de dentro a redoma de vidro.

Cattleya trianae.

Mesmo através de lágrimas, os tons de roxo e lilás eram comoventemente nítidos sobre a pele branca da minha flor. O pequeno toque de amarelo no perianto. Cattleya trianae. A mais linda das orquídeas.

Levantei com cuidado a redoma.

Como pude — eu! — me esquecer? Eu estava vacinada, mas minha flor não. A radiação, a Poeira Atômica ainda ativa na atmosfera da Terra eram mais do que ela podia suportar.

Docemente, como uma criança confiante que espera conseguir socorro a tempo, minha orquídea me olhava nos olhos enquanto suas pétalas se tornavam translúcidas antes de murchar de forma quase imperceptível. Mas era irreversível, eu sabia. Impossível retorná-la à segurança da caixa.

Eu destruí a última flor do Universo.

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