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Homem-correio

pombos

O homem que alimenta pombos me causa dor e nem sabe disso: o retrato mais fiel da solidão que se repete em muitas praças. Ele também me causa culpa, quando peço que não fuce o lixo pra alimentar os pombos ali tão perto. Eu que não quero ser amiga dos pombos. O homem que alimenta pombos apontou o dedo sobre meu egoísmo e me fez sentir raiva por revelar-me igual a todos.

O homem que alimenta pombos me fez devanear sobre suas qualidades e defeitos. Será que é um homem bondoso que só quer fazer o bem aos pássaros nojentos? Será que é um homem tão ruim que só lhe restaram os pombos porque ninguém o tolerava? O homem que alimenta os pombos tem um passado, mas não um cachorro.

O homem que alimenta pombos me fez pensar que ele é como todos nós: egoísta. E que só alimenta os pombos pra não se sentir sozinho, não por amor aos pássaros piolhentos. E mesmo se o ato desse homem seja pura bondade, eu continuo vendo os pombos quando ele vai embora: os pombos ficam limitados àquela praça esperando seu retorno pra comer de novo. E nem sempre ele volta. O homem que alimenta pombos deve saber um pouco de liberdade, mas não transmitiu o que sabia. E deixa os pombos a sua espera.

Que este homem que alimenta pombos e que habita tantas praças saiba que não passou indiferente.

O homem que alimenta pombos intercala nossas misérias com ar de inocência. Ele deve saber o que quer alimentando pombos. Mas não irá me contar porque ele sabe que eu também já devo saber.

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