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Frida e as flores

Alguns poucos animais ainda restam no grande prado. Na linda primavera, as flores do campo emprestam tonalidades à vegetação. Mas os novos tempos sequer esboçam a sombra campestre do passado generoso, quando havia a fartura do pasto. Agora há apenas flores do campo.

A velha e pequenina casa de madeira nativa, rudimentar construção secular, erguida pelo heroico esforço de um único homem, precisa de urgentes reparos. O verão se aproxima e, disseram na televisão, deverá trazer consigo violentas chuvas.

Eis que o rostinho inocente e suave de Frida, debruçada no parapeito da janela frontal, tem vivos olhinhos azuis voltados para o alto do morro. Talvez a frágil casinha erguida na depressão da coxilha não a proteja mais das prováveis enxurradas.

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— Acaso um dia partas daqui, mesmo que pretendas voltar, não me encontrarás a tua espera. Estejas certo de que terei outro homem. Ele será melhor do que tu, e não me deixará!

Letícia, irredutível e nua em sua cama, esfrega vigorosamente os olhos sensibilizados pelo choro e pela sonolência. Há muito teme pelo possível retorno de Chico para casa.

— Letícia, não quero te perder, mas sabes que preciso voltar para buscar Frida, não posso deixá-la lá.

— Pois voltes para aquele lugar e jamais tornarás a me ver. Bem sabes que não quero mais ninguém intrometido em nosso amor. Nesse quarto só há espaço para nós dois. Não posso e nem vou dar sustento a uma criança que não é minha.

Chico deixou o lar alguns meses antes e jamais mandou notícias. No rancho, deixou todos os seus pertences, como sinais de um retorno sem demora.

— Tenho saudade de Frida, queria que pudesses compreender. Não há sentido em minha vida se ela não estiver próxima a mim. Gostamos de cultivar flores juntos, eu e minha menina linda.

— Pois compreendo Chico, poderás ir quando quiseres, mas procura esquecer que eu existo… Fique por lá cultivando suas florezinhas. Quando saíres daqui, vais te arrepender amargamente.

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Erna, a mãe de Frida, há alguns dias partiu para o centro urbano e levou consigo uma grande sacola feita de palha, seus três vestidos junto a alguns objetos que provavelmente lhe seriam úteis. Tal o marido, antes de partir, disse à menina que buscaria o alimento que já ameaçava faltar e que, em breve, voltaria para casa. Calejada pelo trabalho no campo, a mulher tem braços fortes e traz o semblante marcado pela hostilidade dos dias de sol ardente e, também, dos dias de frio cortante.

Parada no passeio público, curva ligeiramente seu corpo para revirar o conteúdo da sacola. Certifica-se de encontrar o que procura, mas o deixa onde está. Compara o número do prédio cinzento que há em frente com a inscrição feita a lápis numa notinha de papel que segura em sua mão.

— 1258, quarto 8, Letícia… Deve ser aqui mesmo!

Empurra sem dificuldade a porta de ferro do grande prédio central e sobe as escadas em direção ao quarto oito. Caminha determinada e introduz a mão direita na sacola.

Uma última revisão na notinha de papel e sua mão esquerda ergue-se para dar três secas batidas na porta do quarto.

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Frida sente mais esperança do que fome. Abandonada, aguarda com ansiedade que do alto do morro se anuncie um retorno. Nos últimos dias, apenas faz ocupar a janela e cuidar amorosamente das flores, amarelas e brancas, as quais seu querido pai colheu na primavera passada e replantou num vasinho que mantém ao lado da porta da cozinha.

Espera pela tempestade que se aproxima. Apenas espera que uma nova primavera devolva a vida que se consome no seu vasinho.

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Sobre Wasil Sacharuk

Wasil Sacharuk é gaúcho de Pelotas e facilitador de oficinas de produção textual literária e de escrita criativa focalizadas no desenvolvimento do interesse pela produção textual e a troca de experiências entre escritores amadores. Publicou “Uma Outra Gnose”, “Sete Sinas”, “Soneto Libertino”, "Catilinárias I", "Catilinárias II", "Da Janela Virtual", "Acrósticos", “O Arquivo e a Verve”, "InspiraturasLab" e "Escorpião - versos autobiográficos". Wasil Sacharuk publica em www.wasilsacharuk.com

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