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A casa de vidro

As coisas mudam em nossa vida de maneira lenta e desesperada, mesmo que nem nos demos conta disso. O celular me despertou na mesma hora e não quis me levantar, faltava menos de duas horas para os seguidos compromissos de trabalho, agenda cheia, mas dei-me mais um tempo no calor da cama, entrei debaixo do chuveiro morno, escovei os dentes, coloquei meu notebook dentro da mochila e saí. No fervor das primeiras horas matinais, ônibus cheio, como sempre foi, mas acordei com um olhar diferente, meu mundo estava ruindo e não era lento como deveria ser, era como se um buraco negro abrisse sob meus pés, e eu vitimado, não sabia o que fazer.

Desci na segunda parada, nem era meu destino, queria me livrar da sensação de impotência, mudar alguma coisa, sentia-me sufocado, não saberia ao certo como mudar, se poderia mudar, o que não queria era a inércia de um dia comum, não era um dia comum. A manhã estava abafada, parecia que ia chover, mas não chovia. Um telegrama mudara tudo no dia anterior, aquela história do passado me fazia sentir estranho e tudo estava voltando como um soco no estômago, como uma explosão de minha úlcera.

Parecia que só eu poderia refazer os caminhos, resgatar o que foi se perdendo com o passar do tempo, resgatar a verdade dentro de toda a ficção que criei para suportar a vida de merda que vivia e provavelmente continuaria vivendo. Poderia resumir tudo nas três fatídicas palavras impressas no telegrama, mas resolvi dar-lhe mais um dia, um mísero e fadado dia, que seria entregue como um presente, um carinho, um beijo de despedida.

Apesar de terem se passado décadas, o meu espírito se apegou à nostalgia, ou à melancolia do bom, do mau, do inesquecível tempo, o nosso tempo. Não sabia definir bem em palavras o sentimento.

As nuvens cinza anunciavam o que viria, mas nunca tive medo de chuva, dava-me conta que o passo estava apressado demais e já não era tão jovem, mas os anos não me pesavam, até ali enganei o tempo, enganei as pessoas e o mais desesperador, enganei a mim. Parei debaixo de uma árvore para decidir por onde começar. Sentia-me fervendo por dentro e precisava respirar fundo, organizar as ideias. Fiquei ali por mais um tempo, olhei para o relógio, já havia perdido o primeiro compromisso da manhã e era hora de encarar as coisas de frente. Repito que minha história poderia ser resumida pelo que estava escrito naquele telegrama de ontem, mas queria reviver tudo. O cotidiano, por esses vinte e poucos anos, seguia seu fluxo natural, convivia com os mesmos amigos que fiz na faculdade e embora meu trabalho exigisse várias viagens, viver outras vidas por um tempo, o cotidiano estava entregue à rotina de um viciado na mentira, um dia de cada vez, a começar do agora. Digo isso por estar preso num labirinto que construí para me sentir seguro dentro desse convívio próximo com os que enganei por tantos anos. Talvez me dei conta do motivo dos olhares estranhos das pessoas que não me conheciam bem,  e percebi que não sabia mais me expor e isso levou muito de mim, não confiava em ninguém para dizer a verdade, sem me censurar, me sentia bobo e insuficiente.

(…)

Há um certo encanto nessa melancolia que sinto, que só vem reforçar a ideia de que valorizo demais o passado e superlativo o futuro, numa quase banalização do presente, que na realidade é tudo que tenho. Escrevi sobre o desespero quando a solidão era insuportável e era como se no papel despojasse de sua presença absoluta. Um texto só existe se for lido e as cartas para ela ainda estiveram todo esse tempo guardadas na velha escrivaninha. Ontem, resolvi entregá-las a uma amiga, para que passasse para o computador, nunca me dei bem com essas máquinas modernas, nasci antes delas, não confio na eletricidade, só confio em meus cadernos.

Poderia fazer como Macunaíma fazia, lorotar, cantar cenas que vivi e me mostrar como o herói cheio de destreza que não sou e me vangloriar por caçar dois veados de uma só vez, quando na realidade perseguira apenas ratos. Sim, segurava ali a verdade e a dissimulação, cada uma apoiada branda em um dos braços, em equilíbrio perfeito e escolhi a mais óbvia, optei pelo padrão do sonhador, a mentira.

Ela fora por mais de duas décadas, em meus devaneios, em confidências aos amigos mais chegados e à boca miúda, minha amante. Inventei sua presença, nossos encontros fictícios, às escuras, aventuras, falas, por mais de vinte anos vivi essa farsa e com tal intensidade que acreditei em cada momento e hoje sinto falta do seu cheiro.

O nosso apartamento ainda existe, na Avenida Estrela do Sul, fui visitá-lo há alguns meses atrás, quando tive notícias de sua doença, o portão permanece o mesmo, exatamente como me lembrava, negro, enferrujado e com o mesmo barulho irritante. O térreo ainda era usado como garagem e a escada estava encardida, com o corrimão de alvenaria, carcomido pelo tempo. Subi devagar as escadas, quase sem coragem de progredir para aquilo que mais parecia uma jornada épica. Sei que isso soa piegas, caro leitor, e creia não sou um romântico incurável, mas sou ineficiente com as palavras. Se for frio ao dizer, soaria como se tivesse visitado qualquer lugar, sem vaga importância e não era o que realmente sentia ou sinto.

A perna tremeu quando venci o primeiro lance de escadas e me imbuí de coragem para vencer o segundo lance e ao chegar a porta me senti vazio, perdido, sem a menor ideia de onde isso acabaria. Um prédio velho e lembranças vívidas, um resgate da juventude.

A porta de entrada revestida por um verniz escuro e brilhante parecia reluzir, não me recordava se era a mesma cor. Bati e fui recebido pela inquilina, já avisada de minha incômoda e anônima visita, foi muito gentil ao receber um desconhecido com um capricho estranho, rever o lugar onde fora feliz. Embrenhei-me nas lembranças silenciosas daquela tarde. Claro que tudo era novo, com exceção da estrutura que continuava a mesma. Fechei os olhos, passei a mão pelas paredes e me lembrei da disposição dos móveis, do sofá vermelho e desconfortável da sala, pedi licença e passei para o corredor, os tacos eram os mesmos e nossa janela ainda estava ali e ao fechar os olhos a via em sua saia preferida e a paisagem antiga com o casebre vizinho permanecia no mesmo lugar.

Tão viva ali como um milagre e é perigoso acreditar em milagres e a estação das flores estava voltando e a sensação de que tudo começará de novo. Não quis ver mais nada, me despedi da desconhecida e agradeci sua boa vontade e desci correndo as escadas, como que se fugindo daquilo tudo. Como um marinheiro que vê o porto ficando para trás em alto mar, olhei mais uma vez o prédio e tudo parecia caminhar lento, o tempo começou a se afastar e minha visão foi se apegando a detalhes daquele cenário.

(…)

Saí correndo, sem olhar para trás, como quem toca o intocável, como quem vê o que deveria ter sido deixado pra lá, no esquecimento.

Naquele dia, comecei o que quero terminar agora, era para lá que deveria voltar agora, refazer meus velhos passos, rever, permitir sentir o que não tive coragem antes. Respirei e segui a pé, passo a passo o caminho de volta.

(…)

Tudo estava tão diferente, derrubaram a casa de Dona Guilhermina, que fazia a melhor compota de goiaba que já provei e no lugar construíram um pequeno prédio com um jardim de inverno, cheio de pedras brancas e cactos.

Havia na esquina um antiquário, onde comprei a escrivaninha que conservo em meu quarto até hoje, olhar para o móvel é como contemplar a mulher que tive, congelada, imóvel, imutável como a lembrança de tê-la.

A padaria permanece no mesmo lugar, sustenta o mesmo nome em um letreiro diferente, sentei-me num banco desconfortável do lado de fora e pedi um café e acendi um cigarro. Antes havia um sebo ali onde agora há uma drogaria, lá penhorava meus livros, para bebê-los no bar do Vladimir, costumava afogar minhas mágoas com a penhora de livros e até hoje quando a noite é muito boa digo que foi digna de um James Joyce.

Algumas travessas que desembocavam na avenida sumiram e deram espaço para grandes construções, condomínios residenciais e para minha grata surpresa, enquanto estava sentado pude ver que conservaram o sobrado, ao ver o seu domo de vidro colorido, entre o cinza do céu, fui preenchido de um sentimento de excitação, tanto que paguei meu café e me dirigi ao seu encontro.

Fora transformado em um estabelecimento comercial, uma livraria dessas franquias que vêm tomando o todo o mercado literário, todos os ladrilhos externos e da fachada haviam sido trocados, mas o domo com vitrais coloridos permanecia ali, resistente ao tempo.

O velho pergolado atado à sua velha trepadeira, aquilo sim poderia ser chamado de amor incondicional, os galhos dela entrelaçados desde a soleira, até o ponto mais alto da madeira maciça dele, um flexível, o outro duro e interagiam em plena e harmoniosa beleza. A varanda semi-ensolarada estava polvilhada de flores roxas, os galhos dançavam suaves a favor do vento, como faziam em lembranças mais tenazes.

Antes de entrar o tão conhecido jardim me recepcionava, perdi a conta de quantas horas de nosso tempo livre passamos naquele casarão abandonado, que carinhosamente chamávamos de nossa casa de vidro. Enchi meus olhos com o deslumbre iluminado ao constatar no que ele se tornara, trazia um tom acinzentado que contrastava com o lilás das flores, nessa mesma época, no finalzinho do inverno, quando éramos jovens.

Tudo ali parecia esperar a primavera, o desespero por eclodir, tudo quieto, numa angústia disfarçada de sol entre nuvens, essa sensação podia ser por conta do vento e da iminência da chuva, lenta e insuportável, como a chave de um ciclo por recomeçar, um retorno ao estágio inicial da fome e do infortúnio, pois o que fere não é o excesso e sim as faltas.

Acredito que minha expressão era de puro deslumbramento, um misto de saudosismo e satisfação. A nossa “Casa de vidro”, onde repassávamos sonhos tão simples e desejos mais intensos, continuava imponente e soberana em meus olhos, atravessando o jardim percebi que não tiraram a fonte, nem o pequeno lago artificial, que antes vivia cheio de folhas, havia carpas agora. No passado éramos invencíveis, não sentíamos medo, inexistia o terror, subestimávamos o mundo de uma maneira tão pura, era como revê-la correndo mais uma vez por esses espaços amplos, era ouvir seu riso ecoando pelo alpendre vazio.

A sala principal fora tomada por mesas e cadeiras de madeira no estilo vitoriano e o imenso espelho que cobria toda a parede fora substituído por estantes abarrotadas de livros. Não me lembro mais de quantos rascunhos seus lemos nessa sala, era engraçado, pois dizia que se inspirava ao me olhar, que flutuávamos juntos, sempre achei que era romântica demais, mas o mundo foi melhor comigo. Hoje vejo em muitos de seus personagens traços tão meus, traços tão seus, sua ira e seu amor, seu desprezo e sua calma e tantos outros sentimentos estão impressos em criações quase ficcionais, agora sei que não são.

Lembrei-me da colcha de retalhos que me enviou pelo correio, e da carta que veio junto com ela, contando como sua avó paterna a ensinara cerzir, quando ainda era uma menina. Assim era nossa vida, minhas lembranças, colchas de retalhos, fragmentos de acontecimentos, que se emendavam pela existência. Havia aquela ausência branda, é verdade que ela incomodava da mesma forma que me fazia companhia, mas somos seres sociais que nos damos o direito de viver sós. Não me sentia um infame, ou coisa do gênero, mas como ela sempre soube golpear, até agora.

Nem todas as lembranças são saborosas, por vezes recordar as frustrações nos faz sentir do que somos feitos, nem tudo são só flores. Sabia como me atingir em cheio e me derrubar, e eu a derrubei muitas vezes, sim, todos nossos queridos sabem de pontos fracos, dos flancos desarmados e de nossas derrotas e isso facilita quando nos acertam sem clemência. Mas a imagem mais recorrente é a de observá-la dormindo, parecia a figura frágil e passiva, os cabelos compridos, as mãos repousadas doces sobre o travesseiro, a respiração calma e quieta, privada de suas armas mais mortais, os olhos ferinos e as palavras afiadas.

Penso que ela gostava de seu lado escuro do mesmo modo que gostava de ver sua sombra refletida no chão, ou nas paredes do quarto, aquilo a acalentava, a casa agora cheirava chá de canela, os visitantes tão comportados escolhiam sua bebida e uma leitura, um casal sentara junto em uma só poltrona à luz do vitral da escada, de tão jovens e sorridentes me fizeram lembrar de nós.

Encolhi-me no canto mais afastado e silencioso, na esperança de não precisar me levantar antes do momento de fechar, queria observar tudo nos pequenos detalhes, reter o momento em minhas retinas.

O reflexo do velho vitral do corredor da escada passeava pela sala, recordava como dançava sob suas cores, havia uma beleza melancólica e desafiadora que agora abandonara o lugar. Os objetos, a paisagem, os cômodos, as escadas transbordavam inquietude e insatisfação, pareciam confessar-me algo que já sabia, que sempre soube. Era um misto de repugnância e amor extremado, a casa não trazia seu personagem principal e sim todos os coadjuvantes, e ao mesmo que estava oca se mostrava repleta de ecos dela.

O mais interessante é que não havia entendido até estar lá que o sobrado era mais parte nossa que o apartamento da Estrela do Sul, que a casa refletia mais insights que o lugar que habitamos, não moramos ali, nem sequer cogitávamos a ideia de que um dia seria nosso canto, aliás não fazíamos planos para o futuro.

A luz clareava seus olhos, nossas peles ficavam azuladas ali, a alucinação era parte integrante do cenário nas noites de lua, tão pouco tempo que passamos juntos e que se arrastam pela memória como velhas correntes em meu telhado, preenchi décadas de vazio com elas. Os olhos já não são os mesmos que habitam agora esse velho caçador, são os velhos homens de sal e pedra, eu sou um deles agora e sua presença me fazia ser ar, ser vento, livre, o bom selvagem e era seu olhar que me fazia ser. Fomos mito e adorador, nos meses que estivemos juntos.

(…)

As paredes não eram nem de longe as mesmas, sem a fuligem de outrora, o mofo, as infiltrações, sem sua sombra passeando por elas. Quando olho para aquele lado a vejo batendo o pé na borda da porta mais uma vez, dizendo meu nome e chamando para dentro da casa vazia, quase impaciente. Com um suspiro corria e fingia que recuava, como que se brincasse de esconder e quando cansava apoiava a mão em seu quadril e olhava para porta como se fosse escapar mais uma vez. Olhávamos para o céu deitados na escada, sob o domo de vidro, não sei ao certo quanto tempo ficávamos ali, por vezes passávamos a noite toda, olhando as estrelas e perdi a conta de quantas fogueiras acendemos naquele quintal, curiosamente penso como não fomos descobertos.

Gostava muito de um afresco feito na parede fora coberto por uma camada ou muitas de tinta cinza, em definitivo, uma moldura vermelha vazia do outro lado da sala principal também não estava mais ali, não era mais nosso sobrado, nosso esconderijo. Recordo-me que quando entrávamos não queríamos sair e algumas vezes era preciso, um ou outro barulho nos fazia pular o muro dos fundos, que dava para um terreno baldio. Acho que o que nos protegia era a sensação de que a casa era habitada, quando fazia frio bebíamos vinho e queimávamos as folhas que caíam da trepadeira e ríamos muito, não creio que muitos soubessem que se tratava de um imóvel quase abandonado. Havia o cheiro ocre de urina, típico de lugares sujos, mas ela tinha seus incensos, suas velas e trazia edredons e almofadas velhos, mas cheirosos.

(…)

Em dado momento pedi a conta, como que para me livrar das lembranças, não funciona assim, não há um botão para desligar a memória e tudo que estava supostamente no fundo, preso como lodo, boia. O negar parece trazer à tona as coisas que quero esquecer e a força que uso para me manter longe disso é proporciona a que me soca na boca do estômago e me arrasta para onde não quero ir.

(…)

Sim, a lembrança me puxava para o fundo dos olhos dela, para a luz das velas refletida neles.

(…)

Nesta manhã a sensação era que ela estava lá, então não era um sonho, erguia a mão até meu rosto e dizia que os obstinados perdiam o sono e a vida buscando coisas impossíveis e por vezes, num golpe de sorte conseguiam. Era o que eu queria ouvir, mas a cena soava surreal demais. Ela ali rolando na minha cama, do meu lado, senti meu rosto em chamas e uma vontade de gritar, porque era exatamente aquilo que queria quando tudo isso começou, mas não podia ser verdade. E não era.

(…)

fragmento do romance inédito “A casa de vidro”
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Sobre Larissa Marques

Escritora, poetisa, leitora compulsiva, amante de Baudelaire e T.S. Eliot

2 comentários em “A casa de vidro

  1. Penso que satisfaça o propósito: uma prévia do romance a ser publicado. Saboreei como a um hors d’œuvre.

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  2. sei que é um texto grande para internet, não costumo postar, mas estou seguindo conselhos e sendo amparada por quem está há mais tempo na estrada. obrigada, seus lindos, por serem tão gentis…

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