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PASSANTE

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Estou pensando seriamente em pensar cada vez menos. Acabo de entrar na minha merecida aposentadoria, e as pessoas tanto me parabenizam… E, aí eu penso, percebendo claramente que pensar, nesse contexto, é coisa que também já dói muito mais inesquecivelmente do que falta de perspectiva de adolescentes ou varada de goiaba em pernas franzinas de crianças supostamente peraltas!

Sim, eu penso: “É uma baita conquista! Pois, sim: viva a minha aposentadoria” (tosse, tosse, tosse…)!

Mas… é prêmio mesmo, ou será castigo disfarçado: uma mazelona sórdida que se cristaliza no açoite claro e ríspido do tempo que passou correndo, ou que correu passando e marcando meu couro refratário a ferro quente?…

Sei lá, roubar meu viço paulatinamente, sob os trabalhos forçados de uma vida inteira, sempre me empurrando mais para o âmbito da sombra da morte, parece serem as inerências mais concretas dessa suposta conquista!

Ah, querem saber: se eu insistir em pensar mais e mais, vou acabar é concluindo que esse é o tipo de prêmio que não me convence muito, nem me engana por completo e tampouco me preenche o ânimo com falsas perspectivas de liberdade, porque liberdade de verdade, é não ter ainda a visão apurada pra enxergar as durezas do nosso próprio entardecer, e tem mais: essa minha “invejável” experiência de um velho que já conquistou muito do que almejava em seus tempos de sonhos, insiste agora em me dizer que ser criança, mesmo parecendo não ter nada de nada ainda, seria, provavelmente, muito mais emocionante.

Sabe, eu gostaria mesmo é de estar começando de novo, sem dinheiro para um pastel chinês, sem profissão definida, correndo atrás de vagalumes e utopias douradas; de empregos promissores, prazeres imediatos e garotas inatingíveis; suportando – na gradativa conquista de alguma maturidade, os tantos medos infundados que, no fundo no fundo, arrepiam bem menos que as duras perspectivas da desilusão ou de algum cheiro ácido de inutilidade e marasmo que emanam das minhas estéreis coragens de hoje…

Pois é, aposentadoria, às vezes, traz-nos estranhos pensamentos!

Eu, pessimista??? Porra nenhuma, pessimista ou otimista seriam, agora, adjetivos um tanto impróprios para mim: eu sou é um aposentado!

Mailton Rangel

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