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COPACABANA

Estatua de Carlos Drummond de Andrade ao amanhecer, Copacabana, Rio de Janeiro

Está quase na hora de ir. Dou uma olhada nas informações sobre o trânsito por força do hábito, entre um relatório e outro, entre uma conversa e outra. “… apresenta trechos com morosidade para quem segue no sentido… na noite desta sexta-feira, informa a Companhia de Engenharia de Tráfego. O fluxo intenso de carros acontece entre Santa Clara e Bolívar… lentidão no trecho entre as ruas República do Peru e Santa Clara. Nas proximidades da Rua Duvivier não há registro de trânsito ruim.” Por alguma razão estúpida estou assim vagamente triste. O celular toca e, distraído, falo com minha mulher enquanto vejo a tarde caindo e me bate uma enorme vontade de ficar mais um pouco e ver o mar. Digo que vou chegar mais tarde e caminho atento e ao mesmo tempo esquecido dos perigos e da pressa. Estou meio turista. Nesse horário todos parecem apressados e eu andando devagar, preguiço pelas ruas, pensei em ir até a Modern Sound, mas desisto e sigo caminhando sem saber por que nem pra onde. Passo por uma moça e noto que ela tem pernas lindas, daquelas esculpidas arduamente em alguma academia. A garota abre um enorme sorriso e me diz um oi mudo, mas caloroso. Penso que deveria parar, mas continuo caminhando e sei que vou ficar pensando naquelas pernas, naquele oi e naquele sorriso por semanas. Não é lá grande coisa, já dispensei alguns muito piores e tive alguns muito melhores. A vizinha não é má, só não estou no clima.

—… Inferno que diabos eu tenho hoje? Copacabana é um bairro legal, gosto daqui. Imóveis baratos, supermercado perto, farmácia, cinema, praia, ônibus, sexo, cerveja e principalmente por poder dizer que se está na Zona Sul, em uma área que já foi nobre. Tiro o paletó e continuo andando, não consigo nem lembrar quando fez frio a última vez. O telefone toca de novo, olho o número e não atendo, tenho preguiça. Falar o quê? A gente se conhece, mas não se conhece de fato é tudo uma grande besteira. Melhor não atender. Preguiça de ser educado. Chego até a praia e sento num dos bancos de costas para a cidade, escutando o barulho do mar. Lembrei do Drummond que fica por ali como um fantasma de poeta. Nunca fica sozinho tem sempre alguém fazendo carinho, querendo uma foto, dando beijinhos. Como estou meio turista penso em ir até lá, mas não saio do lugar, fico só na intenção. Onde estou é mais quieto e acho que a presença do poeta sentado ao meu lado talvez me incomodasse. Mas eu estou com um ar tão sério e contemplativo que daqui a pouco alguém passa e me faz um carinho! Sem o Drummond, meu cúmplice para desviar a atenção, sou um alvo fácil aqui. Talvez acabe indo tomar uma cerveja ao lado do poeta, assim que essa sensação de vazio passar. Percebo com o canto do olho que alguém se aproxima, como não estou mesmo a fim de papo me coloco na ponta do banco. O outro cara continua de pé por um tempo e eu torço pra que vá visitar o Drummond e me deixe ali quieto e só. Ele parece ter outros planos e depois de um tempo senta na outra ponta de costas para o mar.

— Oi.

— Oi.

— Gosto de vir aqui, sabe… Durante o dia seria melhor, o sol, as bundas em desfile, mas não se pode ter tudo.

— Olha cara eu realmente não tou muito sociável hoje.

— Eu sei, percebi que está meio tristonho.

— Como assim percebi?

— Ah é que eu te observo de vez em quando, é um membro interessante da fauna.

— Me observa?

— É o que faço antes de caçar, gosto de escolher com cuidado, mato só quem quer morrer de fato.

Voltei-me pra ele já pronto pra uma briga, mas algo na aparência da figura me fez ficar arrepiado, aquele cara não parecia exatamente humano era como uma cópia muito bem feita e até mais bonita de um de nós. Perfeito. Sobrenatural. Ele sorriu ao perceber meu susto, mas eu continuei a conversa, se ia morrer ia ao menos saber por quê. Seria mais do que a maioria dos mortos conseguia.

— Que estória é essa de caçar?

— Não me leve a mal, não é pessoal, apenas preciso matar pra continuar vivo. Como gosto de ficar vivo eu mato, mas sou seletivo e delicado. Tinha até desistido de você.

— Sei. E porque mudou de ideia?

— Não mudei completamente, mas resolvi te dar uma escolha antes de te matar, você tem uns dias pra pensar.

— Que gentileza a sua — eu disse sem sorrir.

— Admito que gosto de te ver por aí e parece ser uma companhia divertida.

— O que você é? Um vampiro gay?

— Não exatamente. Um vampiro, sim, e como tal eu não preciso me prender a certos conceitos… Com o tempo isso acaba se tornando divertido.

— Sei.

— Sabe você lê muito, ama sua esposa, tem amigos, mas ultimamente anda estranho, fica mais em casa, bebe mais, dorme menos, quer emagrecer, ri menos da vida, mas nem por isso deixa de sorrir. Gosto de você e por isso quero te dar um presente.

Pensei vagamente em porque diabos não fui pra casa.

— Ah, isso? Você está aqui porque eu mandei essa sugestão, faz parte do pacote de poderes.

— Morder pescoços também e eu ando pensando em ser vegetariano.

— Isso também é opcional, alguns vampiros gostam de obter energia assim eu prefiro o modo dos íncubos e súcubos.

— Íncubos e súcubos? Sexo? Pensei que vampiros não transassem.

— Como disse eu prefiro assim, é mais divertido. Mordo os homens, transo com as mulheres e roubo a energia.

— Sei.

— A proposta é bem simples: eu posso te morder e matar, o que seria simples, já que estou faminto.

— Sei.

— A outra opção é você virar um parceiro. Dou o poder, mas você larga tudo e vem comigo. Você tem até amanhã à noite. Não se preocupe, eu te acho.

Dizendo isso ele sumiu me deixando aqui olhando o mar.

A tarde cai linda como sempre, linda como mais um maldito cartão postal enquanto eu penso que morrer ali é fácil e em como, apesar disso eu sobrevivo. Um pensamento leva ao outro e lembro que mataram dois caras que eu conhecia desde criança, feriram outro perto da Duvivier, não dá pra ter muita certeza de nada, pela manhã posso morrer de bala perdida, na Barata Ribeiro ou na Siqueira Campos. Era noite quando o vi parado na frente do meu prédio. Achei que parecia tenso, mas nada que eu não pudesse resolver. Ele assoviou antes de dizer em voz alta.

— Sempre penso que você é bonita demais para morrer.

Seus olhos me distraíram e mal ouvi o que dizia. Mesmo sendo cínico e irritante seus olhos diziam outra coisa, era como se me pedissem socorro. Estava presa a eles, era meu vício ajudar aquele cara, ouvir o que dizia mesmo quando parecia absurdo.

— Tenho que repetir? Ok. Então repito o que disse dois anos atrás: Não! Não tou a fim de receber seu presente.

Em minha cabeça Mick Jagger começou a cantar Simpathy for the devil e eu achei a trilha bem adequada.

— Tenho outra proposta.

— Porque essa cisma comigo?

— Pensei que disfarçasse bem minha obsessão.

— Disfarça, mas é que eu tenho esse dom, esse radar de malucos e os reconheço a quilômetros.

— Você é divertida, não tem medo de mim. Gosto disso. Ainda está certa da decisão?

— É a mesma de dois anos atrás. Eu seria uma péssima vampira.

— Discordo, mas talvez você mude de ideia. Sabe aquele cara para quem você deu um oi acintoso na outra noite?

— Precisa parar de brincar com a comida. Porque não me mata logo?

— Acho que de certo modo você já está morta.

— O que tem o cara? Você o matou?

— Ia matar. Achei aquele seu oi acintoso. Você é minha, precisa lembrar-se disso.

— Deixa ver então… Se não o matou você quer dá-lo a mim?

— Acho que gosta dele.

— Gosto. Como gosto do Brad Pitt. É só um cara que passa na rua em que trabalho. Não precisa matar por isso.

— Vamos fazer um acordo então, se ele aceitar a proposta você também aceita e se ele não aceitar você aceita para que eu não o mate. Por ora eu só quero você por algumas horas.

— Quer dizer que está apaixonado por mim?

— Não, mas eu finjo bem e gosto de brincar com a comida. Vem!

Ele me deu a mão e seu sorriso era levemente diabólico.

Choveu. A tempestade despencou sobre a cidade no momento em que a moça pôs o pé na calçada. Ela correu para se abrigar sob a marquise mais próxima, não sem antes afogar a sapatilha, vermelha e nova, numa recém formada poça. Depois maldisse a nuvem, a cidade, o ônibus lotado, o show que tinha engarrafado o trânsito. Apertou-se contra a parede sem pensar, ao menos no primeiro segundo, na sujeira, nos assaltos, no atraso. A cidade encolhia-se também, enquanto o vento assobiava entre os prédios. Ela pensava em livros, trolls, tsunamis e romances. Pensava que nos romances a chuva, quase sempre trazia acontecimentos.

— Não pra mim — sussurrou completando o pensamento.

Nesse momento ouviu um trovão e olhou para o céu. A chuva aumentava. Quando voltou a se concentrar no que estava à sua volta percebeu que a marquise não era só sua. Do lado esquerdo havia a mulher bonita e sexy. A estranha vestia um vestido preto tão justo que respirar deveria ser um luxo ao qual não se dedicava e enquanto se equilibrava sobre um salto agulha, sorria.

— Oi. Que chuva! Acho que estamos presos aqui.

A moça sorriu sem responder e ouviu uma voz de tenor recitar do seu lado direito:

— Todos têm por onde ser desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer.

A moça respondeu com o mesmo sorriso vago que havia dedicado à afirmação da sua acompanhante do lado esquerdo. A mulher gargalhou em resposta enquanto o homem se voltava para a moça e tomando de sua mão se apresentou cheio de pompa.

— Sou Valmont, para o seu prazer.

Era um homem forte de cabelos castanhos e olhos escuros, vestia camisa cinzenta e jeans. Parecia não se importar nem um pouco com o vento gelado que fustigava seus braços nus. Devia ter 42 anos e, ao mesmo tempo tinha um jeito de estudante que a roupa acentuava.
A moça riu e ficou imaginando de quem seria aquela pegadinha.

— Se você é Valmont eu sou a Hermione.

— Não seria um nome ruim, mas prefiro ser Valmont. Você pode ser quem quiser chapeuzinho.

— Eu prefiro ser o diabo.

 

 

Rosa Cardoso

Estatua de Carlos Drummond de Andrade ao amanhecer, Copacabana, Rio de Janeiro

Está quase na hora de ir. Dou uma olhada nas informações sobre o trânsito por força do hábito, entre um relatório e outro, entre uma conversa e outra. “… apresenta trechos com morosidade para quem segue no sentido… na noite desta sexta-feira, informa a Companhia de Engenharia de Tráfego. O fluxo intenso de carros acontece entre Santa Clara e Bolívar… lentidão no trecho entre as ruas República do Peru e Santa Clara. Nas proximidades da Rua Duvivier não há registro de trânsito ruim.” Por alguma razão estúpida estou assim vagamente triste. O celular toca e, distraído falo com minha mulher enquanto vejo a tarde caindo e me bate uma enorme vontade de ficar mais um pouco e ver o mar. Digo que vou chegar mais tarde e caminho atento e ao mesmo tempo esquecido dos perigos e da pressa. Estou meio turista. Nesse horário todos parecem apressados e eu andando…

Ver o post original 1.689 mais palavras

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Sobre Rosa Cardoso

Pseudo-poeta! Batizei-me assim quando ,depois de ler Bandeira , atrevida e teimosa cometi uns versos. Li e os achei esquisitos e parecidos comigo. Adotei-os. Os contos vieram depois e nasciam meio mortos. Os leitores reclamavam : Onde está o final? Sofria buscando dar um final aos natimortos. Isso foi antes. Passado, pretérito mais que perfeitinho, agora quero sinceramente que os finais se danem. Não gostou? Inventa um. Se for legal me mostra.

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