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fissura

roseira

“Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo, mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.”

pequena fissura
desfia a malha

remendo

uma
duas
mil vezes

misteriosa e confusa
teia de seixos
que me enrola

a fissura eu escondo
e me enreda
sob o disfarce de um sorriso

uma
duas
mil vezes

escrevo bilhetes plenos
vastos de segredos claros

de novo e de novo

amasso o papel
bolas compactas

rolam nos cantos do quarto


Poema de Rosa Cardoso, citação de Caio Fernando Abreu

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Sobre Rosa Cardoso

Pseudo-poeta! Batizei-me assim quando ,depois de ler Bandeira , atrevida e teimosa cometi uns versos. Li e os achei esquisitos e parecidos comigo. Adotei-os. Os contos vieram depois e nasciam meio mortos. Os leitores reclamavam : Onde está o final? Sofria buscando dar um final aos natimortos. Isso foi antes. Passado, pretérito mais que perfeitinho, agora quero sinceramente que os finais se danem. Não gostou? Inventa um. Se for legal me mostra.

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